7 de Novembro de 2007 / às 20:44 / 10 anos atrás

Abegás acena com recuo de investimentos e rebate Petrobras

Por Denise Luna

RIO DE JANEIRO (Reuters) - As distribuidoras de gás natural no Brasil colocaram em compasso de espera os planos de investimentos de mais de 6 bilhões de reais nos próximos cinco anos diante da crise do setor, informou o presidente da Abegás, Armando Laudorio.

Ele se disse indignado com as declarações do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, nesta quarta-feira, de que a culpa do corte de fornecimento de Gás Natural Veicular (GNV) foi das distribuidoras.

Laudorio lembrou que a maior dona de postos de GNV no Brasil é a própria estatal, que sempre teria incentivado o aumento do uso do combustível.

"A Petrobras saiu em campo divulgando o plano de gás natural e incentivando as distribuidoras a expandirem a malha, todo mundo acabou investindo, mas agora vão ter mais cautela para investir", afirmou Laudorio à Reuters, lembrando que situações instáveis afastam qualquer investidor.

Ele informou que as distribuidoras tentam há cinco anos negociar com a Petrobras, sem sucesso, novos contratos com volumes condizentes com o crescimento anual de cerca de 20 por cento do mercado de gás. Nos últimos 10 anos, segundo Laudório, essas empresas investiram 6 bilhões de reais e se preparavam para repetir o montante na metade do tempo.

"Nos últimos três, quatro anos, houve uma divulgação de um plano do uso de gás natural no Brasil pela própria Petrobras, esse foi o sinal dado pela Petrobras e pelo governo federal", disse o representante das 27 distribuidoras de gás do país.

A Petrobras cortou parte do fornecimento de gás para as distribuidoras no dia 30 de outubro por falta de combustível para atender toda a demanda do mercado, depois que o Operador Nacional do Sistema determinou que a empresa abastecesse as termelétricas do país para poupar os reservatórios hidrelétricos.

Segundo Laudorio, o fornecimento maior de gás do que o contratado para as distribuidoras é um "acordo tácito" entre essas empresas e a estatal, e não poderia ter sido rompido como foi na semana passada.

"Essa decisão, do jeito que foi tomada, fugiu aos padrões da Petrobras, foi irresponsável e intempestivo", criticou.

"É como se um cara que ganha 1 mil reais passasse a ganhar 3 mil reais, descontando impostos, tudo direitinho, e o patrão de repente resolvesse voltar a pagar 1 mil reais...o cara tem seus compromissos", exemplificou.

Laudório afirmou que o aviso da Petrobras chegou às distribuidoras na noite de 29 de outubro, para um corte às 7h da manhã do dia seguinte, sem especificar onde seria feito. A distribuidora de São Paulo, Comgás, conseguiu que clientes substituíssem o gás por outro combustível, mas no Rio de Janeiro a situação foi mais complicada.

"O Rio tem simplesmente uma das maiores siderúrgicas da América Latina e não conseguiu o mesmo que a Comgás, ninguém quis substituir o gás, por isso entramos na Justiça", explicou.

A Ceg e a Ceg Rio conseguiram liminar no mesmo dia do corte do fornecimento da Petrobras, que se viu obrigada a voltar a entregar o combustível. A Abegás está alertando todos os Estados a fazerem o mesmo se o envio de gás for reduzido.

Para Laudório, a reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que será realizado na quinta-feira no Rio, não terá nenhum efeito se o governo e a Petrobras continuarem optando por cortar o fornecimento.

"Tem que tomar atitudes simples, como mudar as termelétricas de gás para combustíveis alternativos e acelerar a entrada em produção de campos de gás no país, senão não tem reunião do CNPE que dê jeito", disse o executivo.

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