23 de Outubro de 2007 / às 02:24 / 10 anos atrás

COLUNA-Economia forte depende de família de índices e "torcida"

Por Angela Bittencourt

SÃO PAULO (Reuters) - A economia brasileira decola, mas a manutenção do arranque não é líquido e certo.

O crescimento sustentado no patamar de 5 por cento e embalado por disciplinada inflação depende de uma harmônica composição de variáveis. Algumas desempenham duplo papel e embrenham-se em melindrosos laços de parentesco.

Além de preços fundamentais da economia --juro e câmbio, por exemplo--, algumas das variáveis são alternativas de aplicação financeira e acabam subordinadas a torcidas cívicas ou interesseiras.

Investimentos na produção integram esse conjunto de variáveis que levam a economia adiante ou não. E a decisão de investir depende de confiança de quem compra, de quem vende e de quem produz, mas também do retorno prometido por uma parentada de indicadores.

É fato que a vigorosa expansão dos bens de capital acena com aumento da oferta num cenário de demanda aquecida. Mas o avanço de bens de capital depende, também, da evolução da taxa de câmbio, que vem incentivando importações de máquinas e atualização de equipamentos já existentes.

Repercussão semelhante vale para o comportamento do juro que, em queda, tende a incentivar a procura por crédito, maior interesse por ações das empresas e maior concessão de empréstimos aos consumidores. Em alta, o juro tende a impor uma trava nos negócios, mas que pode ser oportuna para evitar ajustes bruscos no futuro caso a baixa da inflação não esteja bem ancorada.

DATA MARCADA

Após dois anos de cortes consecutivos da taxa Selic, o mercado já comprou a idéia de que o Banco Central interromperá os cortes em data marcada: 17 de outubro.

A expectativa com a cautela do Comitê de Política Monetária (Copom), que encerra a penúltima reunião do ano nesse dia, inspira-se no temor de que o aquecimento da indústria levará a inflação a ganhar asas ao transitar de 2008 para 2009.

“Reconhecemos a aceleração do ritmo de expansão da atividade, mas rejeitamos a idéia de que essa aceleração pode levar o Copom a paralisar a redução dos juros”, pondera Julio Almeida, professor da Unicamp e assessor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

“A interrupção do corte do juro, se confirmada, será um equívoco porque o nível de utilização da capacidade instalada não repercute em aumento da inflação. Há um excedente confortável de produção potencial para atender a demanda ainda que esta venha a crescer mais”, garante o instituto.

AÇÃO E REAÇÃO

A A.C.Pastore & Associados explica que os dados utilizados pelo BC para fixar a taxa Selic produzem uma “curva de reação” que interfere em futuras decisões da instituição.

Simulações feitas pela consultoria consideram que o BC fixa a Selic a partir da combinação de três dados: expectativas de inflação em relação à meta; equilíbrio entre oferta e demanda por bens na economia e comportamento da taxa de câmbio.

Levando em conta projeções para esses itens em períodos diferentes, a consultoria identifica estabilização da taxa Selic para os próximos meses e atesta também que o BC, por vezes, desviou-se da trajetória indicada ou esperada.

“Atualmente, a taxa Selic já caiu abaixo da indicada pela curva de reação do BC. Ou seja, o exercício mostra que, se seguisse exatamente a sua curva de reação, o BC já deveria ter iniciado a pausa na trajetória da taxa de juros.”

A A.C.Pastore pondera que outra simulação de indicadores mostra que a trajetória futura da Selic seria de alta contínua.

“Um outro desvio entre as taxas ocorridas e as indicadas pela curva de reação, apontada pela combinação de dados usados pelo BC, ocorreu em 2004. Nesse ano, o BC deveria ter começado a reduzir a velocidade de queda da Selic antes do que começou, e deveria também ter elevado a taxa mais cedo.”

AJUSTE SUAVE, SE POSSÍVEL

Affonso Celso Pastore, que pilota a consultoria, pondera que ao cometer aquele erro em 2004 o BC contribuiu para acelerar a inflação, que vinha pressionada pelo descompasso entre oferta e demanda por bens e pela depreciação cambial.

“A consequência foi que em 2005 o BC teve que elevar a taxa Selic muito mais vigorosamente, com reflexos negativos sobre a atividade econômica.”

O economista alerta que a lição de 2004 é importante.

“Ao tentar explorar mais agressivamente um eventual espaço para reduzir o juro --quando na verdade aquele espaço não existia-- o BC ampliou o custo da política monetária. O BC reagiu mais fortemente e desacelerou a atividade econômica mais do que teria ocorrido na estratégia alternativa.”

Ele explica que, para evitar os custos de oscilações mais bruscas na atividade, um BC prefere “sempre que possível” trajetórias mais suaves de ajuste do juro básico.

“Nesse sentido, a pausa no atual ciclo de queda minimiza a probabilidade de aumentos, ou aumentos maiores, da Selic no futuro, evitando produzir queda também maior da atividade.”

Contrariando a idéia de que a pausa no corte do juro neste momento estaria prejudicando a retomada do crescimento, Pastore pondera que, na prática, a pausa estará evitando desacelerações futuras da atividade --criando, sim, condições para um crescimento sustentável e a taxas estáveis.

“A ‘pausa’ é a escolha certa caso o BC queira, a um só tempo, manter a inflação no intervalo para a meta de inflação e minimizar as oscilações do produto e do emprego”, afirma.

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