9 de Setembro de 2008 / às 13:51 / 9 anos atrás

ANÁLISE-Setor automotivo global aposta pesado no Brasil

Por Todd Benson

SÃO PAULO (Reuters) - Apenas alguns anos atrás, a maior parte da indústria automotiva do Brasil sofria prejuízos e promovia demissões, tentando se reestruturar para um enorme mercado que parecia nunca pronto para decolar.

Recentemente, as empresas adicionaram turnos de produção e estão gastando bilhões de dólares para aumentar capacidade e atender à demanda do país, que sustenta o maior ciclo de crescimento econômico em décadas.

Após três anos de intensa expansão, o mercado brasileiro de automóveis mostra alguns sinais de enfraquecimento, à medida que o aumento dos juros começa a afetar a demanda dos consumidores. Mas analistas e integrantes do setor dizem que a desaceleração não deve evoluir para uma crise porque ainda há muita demanda reprimida. Isso torna o Brasil um mercado crucial para o setor automotivo global.

"O Brasil é, definitivamente, uma peça importante do xadrez global da indústria automotiva", disse Guido Vildozo, analista do setor para a Global Insight, consultoria baseada nos Estados Unidos. "E isso está refletido de forma clara no montante de investimentos que o Brasil está recebendo."

Com as vendas em apuros em mercados tradicionais como Estados Unidos, Europa e Japão, e mesmo com China e Índia ficando abaixo das expectativas, as empresas do setor estão despejando dinheiro no Brasil.

A indústria automotiva deve atrair 23 bilhões de dólares em investimentos nos próximos quatro anos, elevando a capacidade total em 2,5 milhões de veículos, para 6 milhões de unidades por ano, de acordo com a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

As empresas norte-americanas e européias, que dominam há muito tempo o mercado brasileiro, estão liderando os desembolsos. A General Motors, por exemplo, espera investir cerca de 3 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. Para a companhia, o país se tornou o terceiro mercado mais importante, além de uma base importante de engenharia.

A Ford, que não muito tempo atrás considerou sair do Brasil, planeja investir mais de 1,6 bilhão de dólares nos próximos quatro anos em desenvolvimento de produtos e no aumento da capacidade de sua fábrica de motores. Já a Volkswagen vai investir cerca de 1,86 bilhão de dólares até 2011 no país, onde vende mais carros do que na Alemanha.

"Hoje, para nós, os dois países mais importantes são a China e depois o Brasil", disse Flavio Padovan, vice-presidente de vendas e marketing da unidade brasileira da Volkswagen.

As empresas asiáticas também querem participar. A Toyota pretende construir uma planta de 700 milhões de dólares em São Paulo para ampliar presença no Brasil, onde tem somente 2 por cento do mercado. A Suzuki deve retornar ao Brasil em outubro e a Nissan afirmou no mês passado que vai começar a produzir carros de passeio no país pela primeira vez.

OBSTÁCULOS À FRENTE?

A corrida de investimentos no Brasil acontece justo no momento em que o mercado parece perder força. A venda de carros e caminhões despencou 15,1 por cento em agosto, após recorde em julho, sugerindo que o recente aumento dos juros visando o combate à inflação está começando a afetar a economia.

Mas mesmo com a queda em agosto, as vendas estão em alta de 26,4 por cento neste ano, e devem terminar 2008 com crescimento de 24,2 por cento, de acordo com a Anfavea. No ano passado, as vendas dispararam 29 por cento, puxadas pelo aumento da renda e pela expansão do crédito que permitiram que muitas pessoas comprassem um carro pela primeira vez.

Após um ciclo tão intenso de crescimento, as montadoras dizem que uma desaceleração é esperada. A empresa de consultoria Global Insight prevê que as vendas cresçam 8 por cento em 2009, com a possibilidade de que desacelerem ainda mais depois disso.

"Francamente, não vemos isso como uma grande preocupação", disse Jaime Ardila, presidente-executivo da GM no Brasil. "A nova taxa de crescimento é muito mais sustentável no longo prazo, então na verdade vemos isso como um processo saudável."

Mesmo assim, outros obstáculos podem estar adiante. Na semana passada, trabalhadores em oito fábricas interromperam brevemente o trabalho para protestar por aumento de salário. Líderes sindicais alertam que novas greves devem ocorrer se os empresários não concordarem em dividir uma parcela maior dos lucros.

Além disso, com os juros em alta e com a economia perdendo um pouco de força, alguns analistas temem que o financiamento para a compra de automóveis --ingrediente chave para a retomada do setor-- possa começar a encolher. Outros se preocupam com a possibilidade de que aqueles que já financiaram seus carros tenham dificuldades em pagar as prestações.

Ainda que a inadimplência no financiamento de automóveis tenha subido nos últimos meses, a taxa de 3,7 por cento ainda é muito menor que a média de 7,3 por cento vista em outros empréstimos no Brasil, de acordo com dados do Banco Central.

Os concessores de crédito não parecem muito preocupados com uma alta repentina na inadimplência. Todos os grandes bancos privados no Brasil estão expandindo agressivamente essa atividade, e o Banco do Brasil está se juntando ao grupo sul-africano FirstRand para atuar nesse setor.

"Essa preocupação do crédito acho que é um pouco exagerada", disse Rogélio Golfarb, diretor de assuntos corporativos da Ford na América do Sul. "Os bancos estão percebendo que financiamento de veículos no Brasil é um grande negócio para se estar."

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