Quenianos encontram corpos uma semana após massacre em igreja

terça-feira, 8 de janeiro de 2008 09:39 BRST
 

Por Tim Cocks

KIAMBAA, Quênia (Reuters) - Uma semana depois de uma multidão incendiar uma igreja e matar cerca de 30 pessoas, no pior incidente da violência pós-eleitoral do Quênia, famílias de vítimas continuam encontrando corpos mutilados em campos dos arredores.

Faith Wairimu chorou ao encontrar parte do corpo de seu marido num matagal, na noite de segunda-feira, após dias de busca. A cabeça e o tronco não estavam lá, mas a mulher o reconheceu pelas calças.

"É ele, está morto", disse a camponesa, pressionando o punho contra os lábios e apertando os olhos para conter as lágrimas. Dois policiais colocaram as pernas e o abdome num saco e levaram numa caminhonete. "Deus nos ajude", murmurava um dos policiais, balançando a cabeça.

No dia 1o de janeiro, um grupo invadiu a aldeia de Kiambaa, no vale do Rift, e atacou membros da etnia kikuyu, do presidente Mwai Kibaki, vencedor da eleição do dia 27, que segundo a oposição foi fraudada.

A multidão trancou dezenas de pessoas numa igreja em que haviam se refugiado, bloqueou a porta com um colchão e ateou fogo, segundo moradores.

Cerca de 30 pessoas morreram queimadas, enquanto os agressores perseguiam outras pelos campos, atacando-as com facões. "Não posso acreditar que fizeram isso com ele", lamentava Wairimu olhando os restos do marido.

A mãe dela também foi morta, por uma flecha envenenada lançada pelos agressores, segundo Wairimu, que até então tinha esperanças de achar o marido com vida.

Oficialmente, os distúrbios pós-eleitorais deixaram quase 500 mortos, mas a oposição diz que a cifra real se aproxima de mil. Raila Odinga, candidato derrotado, suspendeu o comício que havia convocado para terça-feira, a fim de dar mais tempo para uma mediação.

Milhares de membros da etnia kikuyu fugiram de ataques. E em todo o país há mais de 250 mil refugiados.

Muitos procuraram abrigo em igrejas e delegacias na região de Eldoret, principal cidade do fértil vale do Rift, cerca de 300 quilômetros ao norte de Nairóbi. A situação criou uma crise humanitária, com escassez de água e alimentos.