October 8, 2008 / 4:25 PM / 9 years ago

ANÁLISE-Crise financeira esvazia expansão da economia brasileira

7 Min, DE LEITURA

Por Raymond Colitt

BRASÍLIA, 8 de outubro (Reuters) - Poucos meses depois de investidores terem começado a acreditar que o Brasil finalmente despontava como uma potência econômica, a crise financeira mundial trouxe os pés do país latino-americano de volta ao chão.

O mercado de ações brasileiro aumentou oito vezes em apenas cinco anos, estimulado pelo crescimento da demanda interna e por um apetite aparentemente insaciável por seus principais produtos de exportação, do ferro ao aço, do açúcar à soja),

Mas o índice da Bovespa .BVSP atingiu seu menor patamar dos últimos dois anos na quarta-feira de manhã e está quase 50 por cento abaixo de seu pico histórico, de 73.920 pontos, atingido em 29 de maio.

O real BRBY, por outro lado, perdeu cerca de um terço de seu valor em pouco mais de um mês.

"Estou no mercado desde 1980 e nunca vi nada parecido", afirmou Lucy Sousa, presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-SP).

"Algumas semana atrás, os corretores previam que a Bovespa chegaria aos 80 mil pontos neste ano. Agora estamos em 40 mil pontos", disse.

O Brasil não é o único mercado emergente a sofrer duramente enquanto os investidores assustados fogem dos riscos. As bolsas do México e da Argentina também caíram 30 por cento e 40 por cento em relação a seu pico deste ano, respectivamente.

E os parceiros do Brasil no chamado grupo Bric, que reúne a elite das economias emergentes, também sentem o baque.

Na quarta-feira, o índice Hang Sei .HSI, da China, estava 51 por cento abaixo do patamar mais alto deste ano, enquanto o índice RTS .IRTS, da Rússia, caía 69 por cento e o National Stock Index .NSEI, da Índia, 45 por cento.

Nos primeiros meses do ano, muitos economistas e investidores haviam pensado que, de alguma maneira, o Brasil, que fez grandes avanços nos últimos anos ao sanear suas contas públicas e que abriga um grande mercado interno, emergiria quase ileso do abalo financeiro global.

O otimismo, no entanto, afundou como um tijolo na água durante esta semana, junto com os mercados financeiros.

"Não vejo como o Brasil conseguirá agora escapar da estagnação econômica", afirmou Alexandre Assaf, professor de finanças da Universidade de São Paulo.

A economia do país cresceu a uma taxa anual de 6 por cento no segundo trimestre deste ano e a expectativa é que feche 2009 com uma alta de 3,5 por cento, segundo sondagem feita na semana passada junto ao mercado pelo Banco Central.

No entanto, na segunda-feira, o banco de investimentos Morgan Stanley reviu para 2 por cento sua previsão de crescimento para o Brasil no próximo ano, e outros economistas devem seguir essa mesma tendência.

COMMODITIES EM BAIXA SÃO AMEAÇA

Uma forma pela qual a crise financeira global atinge o Brasil é a queda no preço das commodities, já que o país ainda depende enormemente de seus recursos naturais e de seus produtos agrícolas.

Além disso, alguns economistas dizem que o investimento estrangeiro direto diminuirá e, dessa forma, prejudicará a balança de pagamentos, que já se encontra sob pressão devido à retração do superávit comercial.

A favor do Brasil, no entanto, deve-se observar que o mergulho das bolsas pode ser antes um reflexo de um movimento no qual os investidores livram-se de seus ativos em mercados emergentes para cobrir prejuízos em outros locais do que um reflexo dos fundamentos da economia brasileira.

"Não se trata de um ajuste técnico dos ativos brasileiros, mas das consequências de uma crise global sem precedentes", disse Darwin Dib, economista-sênior do Unibanco.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um esquerdista cujos índices de popularidade atingiram níveis recordes no mês passado em virtude da economia forte e do aumento nos gastos do governo com programas sociais, mostra-se relutante em até mesmo falar sobre a crise.

Quando o fez, culpou os EUA pelo problema.

O Banco Central começou recentemente a vender dólares e contratos de swaps para injetar liquidez no mercado financeiro e melhorar os índices de confiança.

A entidade ainda diminuiu o montante da reserva compulsória a ser observada pelos bancos. Mas alguns afirmam que o Brasil demorou para reagir à crise cada vez mais ampla.

"Isso deveria ter sido feito algum tempo atrás", afirmou Assaf.

Segundo alguns analistas, a crise anunciava-se desde alguns meses e os governantes e investidores ignoraram a ameaça da queda no preço das commodities.

"Desde o ano passado, o mercado havia ido para além do que justificavam seus fundamentos, e os investidores estavam mergulhados em uma onda de euforia", afirmou Sousa.

Agora, mesmo a exploração das enormes reservas de petróleo descobertas recentemente, cujos futuros proventos já são alvo da ambição de políticos, pode ser adiada.

"Essa crise é muito maior do que as outras que vimos. Certamente, haverá consequências, ajustes, alguma correção de rumo", afirmou Pedro Barusco, chefe de engenharia da estatal Petrobras (PETR4.SA)(PBR.N), referindo-se a um plano de desenvolvimento estratégico de cinco anos que a empresa estava prestes a lançar.

Ainda assim, há os otimistas para os quais nem tudo está perdido e o Brasil, chamado há muito tempo de o gigante adormecido por não conseguir realizar seu potencial, embarcou apenas em um cochilo.

"Estamos pagando o preço com um crescimento menor agora. Mas, quando isso acabar, vamos estar lá, vamos nos recuperar", afirmou Dib.

Reportagem adicional de Denise Luna no Rio de Janeiro e Elzio Barreto em São Paulo

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