10 de Dezembro de 2007 / às 21:36 / 10 anos atrás

Preço no leilão do Madeira gera dúvida sobre viabilidade

Por Denise Luna

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O preço da tarifa de energia oferecido pelo consórcio liderado por Furnas e Odebrecht no leilão da primeira usina do rio Madeira, em Rondônia, surpreendeu o mercado e abriu margem para especulações sobre o futuro do projeto, que é fundamental para o crescimento da economia brasileira.

Seguros de que a pressão política falou mais alto, apesar de todos os consórcios terem incluído uma empresa estatal, analistas e consultores especularam durante todo o dia após o leilão para tentar entender a lógica dos vencedores. Alguns acreditam que o valor oferecido torna o projeto praticamente inviável.

Com valor máximo de 122 reais o megawatt hora, o leilão da usina de Santo Antônio foi concluído em poucos minutos, confirmando a vitória de certa forma esperada do consórcio formado por Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, o fundo de investimento Banif-Santander e a distribuidora Cemig, que ofereceram tarifa de 78,90 reais o megawwat hora, bem abaixo do segundo colocado.

A usina terá capacidade instalada de 3.150 MW, energia que será vendida 70 por cento por contrato e 30 por cento no mercado livre.

Para o consultor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura Rafael Schechtman, que esperava preço em torno dos 100 reais o MWh, somente o futuro vai mostrar como o governo "vai resolver o impasse que será criado com o deságio de 35 por cento". A opção de compensar o preço baixo da energia via contratos com a venda no mercado livre, segundo Schechtman, não será viável.

"Furnas e Odebrecht estavam com muita gana de ganhar o negócio e colocaram um preço que ninguém em sã consciência colocaria, tanto que o segundo lugar foi 94,00 reais o MWh", afirmou Schechtman.

As duas empresas iniciaram estudos de viabilidade do projeto do rio Madeira em 2001, quando o sistema de venda de energia não era atrelado a leilões como no governo Lula. Analistas já esperavam que como as empresas conheciam melhor o projeto, poderiam minimizar riscos e oferecer um lance menor do que os concorrentes, mas esperavam valor entre 100 e 110 reais o MWh.

Schechtman calcula que para compensar o preço baixo dos preços contratados o consórcio teria que vender a energia livre em torno dos 180 reais o MWh, sem contar os custos de transmissão, o que inviabilizaria a venda para empresas como a Vale, por exemplo.

"Melhor ela (a Vale) construir térmica a carvão, é mais barato", sugeriu o consultor. Segundo ele, o consórcio liderado pela Camargo Correa, que ficou em segundo lugar, teria uma oferta mais vantajosa para a Vale, com energia livre em torno dos 145 reais o MWh para um tarifa de 94 reais o MWH.

Para o especialista, o projeto corre o risco de se tornar uma nova Itaipu, que teve a obra rateada entre todos os consumidores para ser viabilizada. "Mas isso vai ser problema para o próximo governo", lembrou Schechtman, já que a obra está prevista para terminar no final de 2012.

Na avaliação do analista de energia da Brascan Corretora Diego Núnez, a noção de retorno do setor de energia é diferente das construtoras, o que poderia ter levado a um lance menor. Ele observou que esse pode ser um indicativo para o preço da energia das hidrelétricas da região.

"Este é o primeiro grande empreendimento da região Norte, que vai concentrar tudo o que é grande projeto hidrelétrico daqui para frente, eles (Odebrecht e Furnas) podem achar que tem alguma vantagem sendo os primeiros a chegar e que com essa experiência poderão arrematar outros projetos", avaliou.

Outra hipótese, segundo Núnez, seria o consórcio vencedor, responsável pelo projeto desde o início, ter aumentado o valor de construção da usina e durante a obra reduzir o seu custo, hoje estimado em 9,5 bilhões de reais.

Ele também prevê que os sócios estejam contando com a prorrogação por 20 anos da concessão, o que no caso levaria ao cálculo de um fluxo de caixa de 50 anos, e não de apenas 30 anos. "A Cemig acabou de ter várias concessões renovadas, porque não já contar com isso no Madeira", perguntou.

Para o analista Pedro Galdi, do ABN Amro, no curto prazo as ações das empresas envolvidas vão sofrer um pouco, como ocorreu nesta segunda-feira, embaladas também pelo movimento de realização de lucros. Mas se pensar no longo prazo e a carência de energia no Brasil, a expectativa é de que a obra seja concluída. A Cemig encerrou o pregão em queda de 3,29 por cento e a Eletrobrás de 3,5 por cento, enquanto o Ibovespa cedeu 0,29 por cento.

"O 'funding' ainda não foi anunciado, mas o BNDES vai entrar, tem alguns fatores que ainda não são sabidos", disse, avaliando que o processo de financiamento pode fazer alguma diferença.

Edição de Marcelo Teixeira

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