June 12, 2008 / 3:23 PM / 9 years ago

ANÁLISE-Alta de alimentos e juro é limitada em ações do varejo

5 Min, DE LEITURA

Por Vanessa Stelzer

SÃO PAULO (Reuters) - A alta dos juros em curso no Brasil e os maiores preços de alimentos têm um impacto negativo de curto prazo sobre as empresas de varejo, mas a continuidade do crescimento da economia e a base sólida das companhias são fatores que poderão reverter quedas recentes das ações e mantendo esses papéis como investimentos a serem considerados neste ano, segundo analistas.

As ações da B2W acumulam queda de 0,1 por cento desde abril --mês do primeiro aumento neste ano do juro básico do país-- até quarta-feira. Em junho, quando o Banco Central fez a segunda alta, o recuo é de 13,8 por cento. As da Lojas Americanas recuaram desde abril 18,4 por cento e 5 por cento neste mês.

Os papéis da Renner têm alta de 3,9 por cento desde abril e queda de 2,5 por cento em junho. Já as ações da Saraiva acumulam alta em ambas as medidas.

Os papéis do Pão de Açúcar perderam quase 1 por cento desde abril, época em que as altas dos alimentos começaram a impactar a inflação com mais força.

"O mercado vai por impulso. Tem um acontecimento negativo e ele derruba as ações, mas depois que a empresa anuncia resultados (trimestrais) e eles continuam bons, o papel volta a subir", disse Peter Ping Ho, analista da Planner Corretora.

Ho descarta uma deterioração no resultado do Pão de Açúcar em decorrência do aumento dos preços de alimentação, um dos principais produtos do maior grupo de supermercados listado na bolsa.

"E se houve alguma queda em volume (de vendas de alimentos), pode até aumentar o faturamento da rede porque os preços estão maiores", afirmou ele.

Algumas corretoras chegaram a tirar o Pão de Açúcar de suas carteiras de recomendações em junho, mas os analistas dizem que esse movimento será revertido.

Um analista da área de varejo de uma corretora que preferiu não se identificar lembrou que no caso do Pão de Açúcar, a empresa tem outros aspectos que tornam sua perspectiva positiva, como a recente reestruturação pela qual passou visando reduzir despesas.

"(A alta de custos) pode até frear um pouco o crescimento das vendas, mas de qualquer forma vai ser um ano bom para a empresa, que está mais enxuta", disse ele, lembrando que embora as vendas possam cair em volume, o faturamento aumenta em razão dos maiores preços.

A alta dos preços dos alimentos está concentrada em itens da cesta básica do brasileiro, como arroz, pão francês --que refletem um movimento internacional-- e carnes --que costumam subir nesta época do ano.

CRÉDITO

O impacto do aumento do juro sobre o crédito e consequentemente sobre a demanda no varejo também deve ser limitado, apesar do Banco Central ter sugerido em sua última ata, divulgada nesta quinta-feira, que o aperto continuará neste ano.

"Não deve ter efeito muito forte, até porque você tem a possibilidade de prazos alongados e para o brasileiro a prestação tem é que caber no salário, sem dar importância para os juros embutidos nela", afirmou Álvaro Bandeira, diretor da corretora Ágora.

Nessa categoria entram desde empresas que financiam valores de compra mais baixos, como Renner, até as que vendem produtos de maior valor agregado, como Saraiva, Lojas Americanas e B2W -- Companhia Global de Varejo. Esses itens de preço mais elevado, como eletrônicos, computadores e eletrodomésticos têm suas parcelas suavizadas pela extensão dos prazos de pagamento.

"A economia ainda está acelerando, apesar das altas dos juros, então isso continua estimulando (a demanda)", acrescentou Bandeira.

Além dos dados do Produto Interno Bruto (PIB) mostrando crescimento, os números de emprego e de renda continuam bastante positivos.

No caso da B2W, existe ainda o estímulo de sinergias decorrentes da fusão Americanas.com e Submarino.com, que reduzirá custos, segundo os analistas.

Além disso, alguns bens duráveis passam por uma mudança estrutural no consumo brasileiro, lembrou o analista que preferiu não se identificar.

"As vendas de computadores, por exemplo, estão bastante fortes, porque a penetração de banda larga está crescente, e devem continuar fortes."

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