November 12, 2007 / 9:40 AM / 10 years ago

COLUNA-Atividade anima, mas falta de infra-estrutura preocupa

7 Min, DE LEITURA

Por Angela Bittencourt

SÃO PAULO (Reuters) - A Proclamação da República brinda os brasileiros com mais um fim de semana prolongado, mas o feriado de quinta-feira não alivia a preocupação que pesa no mercado financeiro que vê a economia aquecida demais com infra-estrutura de menos. A articulação do governo em torno da votação da proposta de emenda constitucional (PEC) que prorroga a CPMF e a Desvinculação de Receitas da União (DRU) é alvo de atenção na abertura da semana que será embalada pela divulgação de mais algumas prévias da inflação de novembro.

É grande a expectativa do mercado com os novos índices que devem selar as projeções de inflação abaixo do centro da meta de 4,5 por cento neste ano, mas podem disparar alertas para o ano que vem.

"O aumento do preço do gás natural já sinalizado pelo governo é baixo na estrutura de ponderação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Já o gás de botijão tem participação razoavelmente elevada. Mas este será apenas mais um fator de pressão altista para a inflação de 2008", pondera Fábio Silveira, economista da RC Consultores.

Ele explica que ainda não ocorreram os repasses da alta dos preços agrícolas do atacado para o varejo. Mas eles virão.

"Até agora, elos intermediários da cadeia produtiva seguraram a alta de custos porque têm margem para absorver os impactos, mas as margens vão diminuindo porque estamos com a economia mais aquecida e adicionando outras pressões de custos com razoável consistência."

Silveira classifica como "persistentes, consistentes e prolongados", os reajustes salariais e os índices de preços no atacado, representados pelos IGP's, que já estão acumulando variações entre 5,5 e 6,0 por cento em 12 meses.

Ajuste Estrutural E Global

"Esses índices serão aplicados na correção de alguns preços administrados e contratos, inclusive de aluguel, em 2008. O aumento do preço do gás também repercutirá na economia, e este aumento não tem apenas uma feição política. Tem fundamento econômico", diz Silveira.

Ele entende que o petróleo rondando 95 dólares o barril no mercado internacional torna inevitável a elevação da nafta e, por tabela, de toda a cadeia de produtos petroquímicos.

"Na esfera energética, os reajustes de preços também têm um caráter estrutural e global. Não sabemos se o Banco Central enxergou tudo isso quando decidiu interromper a queda da taxa Selic em outubro. O cenário mostra, porém, que o Comitê de Política Monetária tomou a decisão certa."

Zeina Latif, economista-chefe do Real ABN Amro no Brasil, concorda com Silveira sobre as pressões inflacionárias agendadas para os próximos meses, mas faz um alerta particular para o aumento da fragilidade da política fiscal.

"O mercado fica anestesiado pela queda da relação dívida/PIB, mas a política fiscal piorou e cumprir uma meta contábil não quer dizer que os gastos do governo não terão impacto na economia. Haverá, sim, impacto macro e microeconômico."

Sorte E Chuva

A economista pondera que a expansão de gastos do governo exigirá mais da política monetária porque, ao vigiar a inflação, o BC deverá ser ainda mais cauteloso com a redução do juro.

"Neste sentido, o ideal seria o Congresso não aprovar a prorrogação da CPMF. Seria didático para o país, porque o governo só deixará de aumentar ou cortar gastos quando a receita cair. Mas a CPMF deve ser prorrogada e, como sempre, com elevado custo político."

Zeina avalia que o cenário econômico está piorando neste final de ano, "e precisamos contar com a sorte, com a chuva e com alguma estabilidade na economia internacional que tem tido papel-chave para o Brasil", comenta.

Ela pondera que o ritmo de enfraquecimento da economia internacional, sobretudo a norte-americana, vai impor um novo balanço de risco para o Brasil.

"Não adianta contar com a China como salva pátria. Uma queda mais forte da economia americana não é trivial e, em algum momento, teremos a virada do ciclo de alta das commodities. Esta virada terá impacto na balança comercial com todos os desdobramentos que já conhecemos. A começar pelas perspectivas para a taxa de câmbio."

APAGÃO

Há seis meses, Zeina Latif alertava para o risco de um "apagão energético" com a economia crescendo acima do seu potencial --limite sem gerar inflação.

Ela explica que a descoberta de reservas gigantescas de petróleo não muda o cenário do momento. "Haverá o aumento do preço do gás com impacto pífio na inflação. Mas os grandes problemas sempre começam pequenos. Elevações de preços numa economia crescendo acima do possível requer atenção. E o 'apagão do gás' é a ponta de um iceberg de dificuldades em infra-estrutura. A palavra 'apagão' será cada vez mais falada no Brasil, que não tem sequer uma agenda política."

A economista do Real ABN lembra que um país sem "agenda positiva" corre o risco de ter uma "agenda negativa".

"Não será o fim do mundo, mas estamos convivendo com muitos ruídos e eles são crescentes. É difícil acreditar, por exemplo, que vamos cumprir a meta de inflação. Os preços administrados têm papel importante no resultado, uma vez que os preços livres mudaram completamente de patamar. No início do ano, tínhamos preços livres, dentro do IPCA, rodando 3,3 por cento em 12 meses. Agora, estes preços avançam ao ritmo de 5,0 por cento."

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