November 14, 2007 / 5:08 PM / 10 years ago

ESTRÉIA-"Mutum" leva ao cinema o universo de Guimarães Rosa

4 Min, DE LEITURA

SÃO PAULO, 14 de novembro (Reuters) - A premiada documentarista Sandra Kogut ("Passaporte Húngaro") estréia na ficção com o longa "Mutum", no qual adapta o livro "Campo Geral", de Guimarães Rosa.

O filme foi lançado na Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cinema de Cannes deste ano, e foi o grande vencedor do Festival do Rio, em setembro. "Mutum" entra em cartaz neste feriado em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Apontado pelo escritor mineiro, falecido em 1967, como seu livro preferido, "Campo Geral" conta a história de um menino, Miguilim, que vive com sua família num lugar chamado de Mutum.

O garoto mora com os pais, os irmãos e a avó, no meio do sertão de Minas Gerais. Embora exista uma narrativa de formato convencional, o que soma força são as experiências do menino, que nem sempre sabe interpretar os fatos do mundo adulto.

Em "Mutum", o protagonista atende pelo nome de Thiago (Thiago da Silva Mariz). O universo rural, rude e isolado é filtrado por sua sensibilidade -- não apenas visual, mas também sonora.

O garoto não compreende bem o mundo adulto. Seu grande encanto é a ingenuidade. Quando volta da crisma na cidade grande, ele traz um presente para os irmãos: fotos de mulheres nuas, achando que são imagens de santas.

Mais tarde, Thiago assiste a uma briga entre o pai (João Miguel, de "Cinema, Aspirinas e Urubus") e a mãe (Izadora Fernandes). Sentindo-se incapaz de resolver o conflito, o menino chora. O irmão mais novo, Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso), adoece, e, novamente, Thiago não consegue fazer nada.

A trajetória do menino vai sendo guiada por esses momentos de impotência que o fragilizam, fortalecendo seu processo de amadurecimento.

Ao colocar em cena momentos diretos da narrativa do livro original, Kogut e sua co-roteirista, Ana Luiza Martins Costa, mantêm-se fiéis ao universo do escritor, ao mesmo tempo sem abrir mão de dotar o filme de personalidade própria.

Muito disso se deve à experiência como documentarista da diretora. Assim, sua câmera nunca é invasiva, permitindo retratar a autenticidade da maioria dos atores, que são novatos -- muitos deles nem conheciam o cinema antes dessa experiência.

O fato de ser rodado em locação, com pessoas que conhecem o cotidiano de uma fazenda como a retratada no filme, só contribui para reforçar a delicadeza e segurança com que se constrói a narrativa.

Tão importante quanto a imagem, em "Mutum", é o som. Aqui, a ausência de trilha sonora obriga a prestar atenção no som ambiente, como os ruídos da vida de Thiago, os animais, o vento, a água, enfim, os sons da natureza, que representam a pureza da alma de Thiago.

"Mutum" é, assim como "Campo Geral", uma história de amadurecimento. Tanto no livro, quanto no filme, ao final da jornada, o garoto já não é mais o mesmo. Pode ter perdido sua ingenuidade, mas sua sensibilidade chega ao final intacta --apesar de o mundo ao redor eventualmente conspirar contra isso.

Por Alysson Oliveira, do Cineweb, edição de Fernanda Ezabella

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