December 15, 2007 / 6:50 PM / in 10 years

Niemeyer, 100 anos: solidariedade justifica passeio da vida

4 Min, DE LEITURA

Por Maria Pia Palermo

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O arquiteto Oscar Niemeyer, a passos lentos e de braços dados com um bisneto e um ajudante, desceu a rampa da famosa Casa das Canoas minutos antes da hora marcada para a festa de seus 100 anos, neste sábado, no Rio de Janeiro.

Às 11h em ponto estava sentado ao lado da filha, Ana Maria, e da mulher com quem se casou em 2006, Vera Lúcia, saboreando uma cigarrilha no pátio da casa que projetou em 1952 para sua moradia e da família, em São Conrado, zona sul.

"A gente tem que se basear em convicções muito firmes para aguentar essa luta que a vida representa para o ser humano", disse a jornalistas na casa considerada um dos mais importantes exemplares da arquitetura moderna brasileira, com suas curvas, cercada de vegetação e de onde se avista o mar.

"A vida não é justa e o papel principal que justifica um pouco esse curto passeio é a solidariedade", disse.

Modesto, depois de espalhar obras arquitetônicas por diversos países do mundo, Niemeyer afirmou que teve uma "vida normal". "Um ser humano como outro qualquer, sem nenhuma coisa de especial, não sei nem por que durei tanto", afirmou a um grande grupo de jornalistas, enquanto recebia ao lado de familiares os convidados para a festa.

O bisneto João, que mora com o arquiteto e o acompanhou até a Casa das Canoas, contou que ao acordá-lo nesta manhã lhe deu os parabéns e Niemeyer desconversou: "Parabéns, por quê?"

Mesmo depois de ter declarado que completar 100 anos é uma "bobagem", se mostrou satisfeito com a comemoração, cujo bolo reproduzia uma de suas obras, o Museu de Arte Conteporânea de Niterói.

"Eu sinto prazer, eu fui procurado, os amigos estão presentes, penso no passado, porque a idade obriga, nos amigos que se foram, na família", disse com nostalgia, entre um gole e outro de champanha rosado.

O arquiteto carioca, que ficou famoso nos anos 1940 pelos projetos que se tornaram cartão-postal de Belo Horizonte, no bairro da Pampulha, e, dez anos mais tarde, com a construção dos edifícios da nova capital federal, Brasília, deixou sua marca em diversos países, como a França, onde viveu nos anos 1960, exilado pela ditadura no Brasil por seus ideais comunistas. Projetou a sede do Partido Comunista Francês em Paris e o Centro Cultural Le Havre, além de outras obras emonumentos em países como Venezuela, Cuba e Argélia.

Mas entre familiares e amigos próximos a permanente atividade do artista brasileiro mais reconhecido no exterior, que recebeu o prêmio Pritzker de Arquitetura em 1988, é sempre destacada.

"Ele continua trabalhando e que ser tratado como uma pessoa normal, mas é difícil porque uma pessoa chegar aos 100 anos trabalhando com essa cabeça fantástica que ele tem é algo que não sei quando a gente vai ver de novo", disse Carlos Niemeyer, neto do arquiteto, que entre os projetos atuais que assina está o Centro Cultural Internacional Niemeyer de Avilés, sua primeira obra na Espanha.

O arquiteto falou de suas obras, mas como de costume o tom político esteve presente, lembrando os pobres, a necessidade de justiça social e que acredita que a América Latina continua se organizanco contra o capitalismo decadente.

O escritor Ferreira Gullar, que destacou a dedicação do arquiteto como amigo "solidário", disse que ele é um exemplo para o Brasil. "Só não pode ser um exemplo como artista, porque é um gênio, bom até pode, mas é difícil alcançar."

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