PF atesta que Abin não teria como grampear conversa de Mendes

quinta-feira, 18 de setembro de 2008 14:32 BRT
 

BRASÍLIA (Reuters) - Os aparelhos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) não poderiam ter feito a escuta da conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), atestou laudo da Polícia Federal (PF).

Os resultados da perícia feita pela PF foram encaminhados nesta quinta-feira à CPI das Escutas Telefônicas da Câmara, à Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência e ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, que afirmou que a Abin tinha equipamento para fazer a escuta, .

A perícia apontou que a Abin não poderia interceptar a conversa, pois o único tipo de equipamento que possui para fazer escutas só serve para linhas telefônicas fixas analógicas. A conversa que gerou a crise de espionagem foi feita entre a linha digital do Senado e o celular do presidente do STF.

A informação repercutiu no Congresso. Para o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), a notícia coloca o ministro da Defesa em uma situação delicada. Mostra também que havia mais suspeitas sobre a cúpula da Abin ou que o afastamento da direção da instituição foi precipitado.

"O laudo exclui a possibilidade de a Abin ter realizado essa escuta", afirmou à Reuters o parlamentar.

Segundo o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), no entanto, a Abin poderia ter contratado arapongas para fazer o serviço, pois não detalha todos os gastos que faz. Perguntado se a inocência da Abin estava provada, Jungmann negou: "Eu diria que, de forma definitiva e conclusiva, não."

O laudo foi feito depois que Jobim apresentou documento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com uma lista de aparelhos adquiridos pela Abin por meio da comissão de compras do Exército instalada em Washington. Essa revelação teria levado o presidente Lula a afastar a direção da Abin até que as investigações sobre o caso fossem concluídas.

Na quarta-feira, na CPI das Escutas Telefônicas, Jobim recuou. Apesar de ter reafirmado que a Abin tem a capacidade de fazer grampos, disse que a razão do afastamento da cúpula da agência teria sido a informação de que integrantes seus teriam participado da Operação Satiagraha, da PF.

Também na quarta-feira, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, ministro Jorge Félix, a quem a Abin está subordinada, disse em depoimento à Comissão Mista de Controle das Atividades Financeiras do Congresso que Jobim iria revelar o resultado da perícia feita nos equipamentos da agência. O ministro da Defesa negou que tivesse conhecimento do documento.

A controvérsia aumentou o clima de disputa política entre os dois ministros, pois Félix já vinha sustentando que a Abin não tem meios para realizar iterceptações telefônicas.

O presidente Lula ponderou ainda na quarta-feira, em entrevista à TV Brasil, que o diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, que está afastado, pode retornar ao cargo quando quiser. (Reportagem de Fernando Exman)