June 19, 2008 / 2:03 PM / 9 years ago

Falta especialização ao mercado bovino, alertam especialistas

5 Min, DE LEITURA

Por Camila Moreira

SÃO PAULO, 19 de junho (Reuters) - O embargo europeu à carne brasileira que aconteceu neste ano é um indicativo de que o mercado está cada vez mais em busca de garantias de qualidade e que a rastreabilidade terá que ser considerada como apenas mais uma ferramenta de produção, de acordo com especialistas.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), as exportações de carne bovina do país deverão fechar 2008 com uma queda de cerca de 20 por cento em volume na comparação com 2007 devido em parte às restrições impostas pela União Européia.

Entretanto, a alta dos preços deve garantir um aumento de 10 por cento nas divisas obtidas com as exportações, para algo próximo a 5 bilhões de dólares.[ID:nN10353295]

Para Juan Lebrón, diretor operacional da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) e que já trabalhou com certificações, a tendência é que passem a existir grupos diferentes de produtores conforme as diferentes exigências.

"A tendência é haver uma separação de produtores para atender a diferentes mercados. Existirão blocos para Europa, Japão e EUA, que são exigentes, e outros para Rússia, Chile e outros", afirmou ele à Reuters durante a Feira Internacional da Cadeia Produtiva de Carne (Feicorte).

"Serão grandes blocos com níveis de exigências diferentes, com diferenciações de preços. Haverá um trabalho maior com compensação maior, e você se enquadra naquele a que atende melhor. Isso já está acontecendo", afirmou ele, referindo-se aos 85 estabelecimentos rurais liberados pela União Européia para fornecer gado para os frigoríficos exportadores.

José Amauri Dimarzio, presidente da Associação dos Criadores de Brahman do Brasil e ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura, está confiante de que a União Européia poderá liberar as exportações em geral do Brasil.

Para ele, o aumento das exigências para garantir a segurança alimentar, entre outros quesitos, passará a ser prioridade também de outros países.

"Mais cedo ou mais tarde outros países também vão exigir (a rastreabilidade). No médio para longo prazo todo mundo vai exigir. Em cinco anos os principais compradores, a Rússia incluído, também entrarão nessa", disse ele.

"A rastreabilidade serve para rastrear o caminho, por exemplo, da doença. É uma tendência irreversível do mundo, algo que o consumidor exige", completou.

Bola Da Vez

Assim, o mais importante é garantir os melhores níveis de qualidade, e para tanto, segundo Lebrón, a rastreabilidade precisa ser considerada apenas como mais uma ferramenta de produção.

"O mundo está olhando para o Brasil, por mais que o preço esteja bom, a imagem está ruim. A rastreabilidade tem que ser tratada como uma ferramenta de identificação animal, e pronto. É produzir com responsabilidade em relação ao meio ambiente, à segurança alimentar", afirmou ele.

"Se o boi for magro, horrível, mas com preço bom, não vai para a Europa de qualquer maneira porque não é bom. É só uma ferramenta."

Para o frigorífico Marfrig, um dos maiores do país, isso significa padronização.

"A bola da vez é qualidade. A carne brasileira é uma caixinha de surpresas, se ela não tiver uma marca que garanta os padrões mínimos dos animais e das carcaças, o produto pode ser bom hoje, ser ruim amanhã e não ter padrão", explicou Roberto Barcellos, gerente de projetos especiais da empresa.

"A única forma de eu ter padronização no produto é ter padronização no sistema de produção. Se eu coloco algumas premissas como idade, peso, consigo um produto final padronizado", completou ele, explicando que o Marfrig vai lançar no mercado um produto com essas características, apostando na idéia de resgatar o espaço da carne bovina perdida para a de frango e carne suína exatamente por serem produtos mais padronizados.

Edição de Marcelo Teixeira

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