19 de Fevereiro de 2008 / às 10:49 / 10 anos atrás

Fidel deixa o poder e abre caminho para transição em Cuba

<p>L&iacute;der cubano Fidel Castro acena a bandeira de Cuba durante desfile em Havana no dia 1o de maio de 2005. Foto de arquivo. Photo by Mariana Bazo</p>

Por Esteban Israel

HAVANA (Reuters) - O veterano líder Fidel Castro anunciou na terça-feira que deixa a Presidência de Cuba devido à sua frágil saúde, despedindo-se do poder depois de quase meio século como lenda viva da esquerda mundial e um dos últimos ícones da Guerra Fria.

Fidel, de 81 anos, disse em texto publicado no jornal oficial Granma que ainda não se recuperou da enfermidade não revelada que o obrigou a transferir o poder, há um ano e meio, a seu irmão Raúl. Assim, o líder cubano abriu mão da reeleição em 24 de fevereiro como chefe de Estado.

Na mensagem publicada na terça-feira, Fidel renuncia não só à Presidência como também ao cargo não-eletivo de "Comandante en Jefe", que ostenta desde seus dias de guerrilheiro.

"Aos meus estimados compatriotas, que me fizeram a imensa honra de me eleger em dias recentes como membro do Parlamento, lhes comunico que não aspirarei nem aceitarei --repito-- não aspirarei nem aceitarei, o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante-chefe", escreveu Fidel em texto datado de segunda-feira e publicado na terça pelo diário oficial do Partido Comunista.

A decisão de não se candidatar a mais um mandato de cinco anos como chefe de Estado acaba com o mistério sobre o futuro político do homem que governava Cuba desde a revolução de 1959, desafiando os Estados Unidos e se tornando um mito para a esquerda mundial.

Em sua mensagem, Fidel diz não estar "em condições físicas" de encabeçar outro mandato presidencial, embora goze, segundo ele, de "domínio total" sobre suas faculdades mentais.

SUCESSÃO

O sucessor de Fidel como presidente será anunciado no domingo, quando o Parlamento cubano se reúne para renovar o Conselho de Estado, que ele presidia até agora.

Raúl Castro, um general de 76 anos que foi por meio século o braço direito do irmão mais velho, e a quem substitui interinamente desde julho de 2006, é o candidato mais provável à sucessão.

Em seu comunicado, Fidel disse que a velha guarda que o acompanha desde a época da guerrilha na Sierra Maestra (sudeste de Cuba) tem "a autoridade e a experiência para garantir a substituição". "O caminho sempre será difícil e exigirá o esforço inteligente de todos", escreveu.

A notícia não perturbou a madrugada em Cuba. Na deserta Praça da Revolução, palco de muitos dos intermináveis e ardentes discursos de Fidel, um soldado solitário mantinha a guarda do local sob uma imensa lua cheia.

Fidel, que sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinatos por parte da CIA e reconhecido orador que chegou a fazer um discurso de mais de 7 horas, foi o governante que ficou mais tempo no poder em mais de um século.

ÚLTIMO ENCONTRO COM LULA

Há pouco mais de um mês, após se reunir com Fidel em uma visita a Cuba, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o líder cubano estava "com uma lucidez incrível".

Na ocasião Lula fotografou Fidel, que posou sorridente, em uma poltrona, com o rosto apoiado em uma mão e vestindo agasalho esportivo.

Foram as primeiras fotos de Fidel publicadas desde 14 de outubro, quando ele recebeu uma das frequentes visitas do presidente venezuelano, Hugo Chávez, seu maior aliado na atualidade.

BUSH ESPERA INÍCIO DE TRANSIÇÃO

<p>L&iacute;der cubano Fidel Castro acena a bandeira de Cuba durante desfile em Havana no dia 1o de maio de 2005. Foto de arquivo. Photo by Mariana Bazo</p>

Em viagem pela África, o presidente norte-americano, George W. Bush, afirmou nesta terça-feira que espera que a aposentadoria do líder cubano Fidel Castro marque o início de uma transição democrática na ilha caribenha.

"Eu acredito que a mudança com Fidel Castro deve marcar o começo de um período de transição democrática", disse Bush em entrevista coletiva à imprensa, realizada em Ruanda, que integra o roteiro de sua visita a cinco países africanos.

Bush, que apertou o cerco econômico norte-americano de mais de quatro décadas contra o governo de Cuba, disse esperar que a "transição" leve a eleições "livres e justas" na ilha.

"Era incômoda minha posição frente a um adversário que fez de tudo, o inimaginável, para se desfazer de mim e em nada me agradava agradá-lo", explicou Fidel na mensagem.

O governo cubano confia, no entanto, na continuidade do sistema socialista que Fidel ergueu a apenas 150 quilômetros da costa dos EUA.

SEM SURPRESAS

<p>O veterano l&iacute;der Fidel Castro anunciou na ter&ccedil;a-feira que deixa a Presid&ecirc;ncia de Cuba devido &agrave; sua fr&aacute;gil sa&uacute;de, despedindo-se do poder depois de quase meio s&eacute;culo como lenda viva da esquerda mundial e um dos &uacute;ltimos &iacute;cones da Guerra Fria. Foto em Havana, 19 de fevereiro. Photo by Enrique De La Osa</p>

Fidel se afastou temporariamente do poder em 31 de julho de 2006, depois de uma operação intestinal que o manteve, segundo disse, à beira da morte. Não é visto em público desde então, exceto por fotos e vídeos.

A despedida, por isso, não parece ter surpreendido os cubanos. "Aqui todo mundo sabia faz tempo que Fidel não voltava mais. O povo se acostumou", disse o autônomo Roberto, de 54 anos. "Se disse que o poder passa à 'velha guarda', então com certeza é Raúl", acrescentou.

Muitos cubanos esperam que as novas autoridades adotem medidas para melhorar a qualidade de vida num sistema onde o Estado paga os salários em pesos cubanos e vende produtos importados em uma moeda forte, o peso conversível, que vale 24 vezes mais.

"Para mim tudo vai continuar igual enquanto o governo não fizer as mudanças que tem de fazer no país", comentou um músico na saída de um cabaré na madrugada em Havana.

Muitos acham que Raúl, um militar com imagem de pragmático, poderá reativar a economia sem se afastar do modelo socialista.

"A transição em Cuba já ocorreu há um ano e meio. Este é um passo na direção correta para seguir com as reformas que a economia necessita urgentemente", comentou o gerente de uma empresa multinacional na ilha sob condição de anonimato.

Os opositores vêem a renúncia de Fidel como uma janela de oportunidades.

"Este é um momento crucial para o povo de Cuba", disse à Reuters o dissidente Oswaldo Payá, líder do ilegal mas tolerado Movimento Cristão Liberação.

"Cuba quer mudanças, o povo quer mudanças. Mudança significa abrir os espaços, mudanças nas leis para que os cidadãos possam gozar de seus direitos, participar nesta hora como homens e mulheres livres nos planos do nosso futuro."

A figura de Fidel, porém, continuará como pano de fundo. Sua renúncia à Presidência não impede que seja eleito como membro do Conselho de Estado ou que desempenhe no futuro um papel de "estadista veterano".

Independentemente disso, Fidel manterá uma grande influência política na qualidade de primeiro-secretário do Partido Comunista --o único legal na ilha. E continuará, segundo informou, escrevendo artigos na imprensa, como faz há quase um ano.

"Não me despeço de vocês. Desejo só combater como um soldado das idéias. Continuarei escrevendo sob o título de 'Reflexões do companheiro Fidel"', acrescentou.

Por Esteban Israel, com reportagem adicional de Rosa Tania Valdés em Havana

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