19 de Fevereiro de 2008 / às 16:42 / 10 anos atrás

ANÁLISE-Saída de Fidel abre espaço para reformas graduais

Por Esteban Israel

HAVANA (Reuters) - A aposentadoria política de Fidel Castro pode abrir caminho para reformas econômicas graduais em Cuba, dentro das fronteiras do socialismo e sob o comando de seu irmão Raúl, avaliam analistas.

Fidel, abatido por uma doença intestinal não revelada, despediu-se nesta terça-feira do poder depois de quase meio século comandando Cuba. Tudo indica que Raúl Castro, que o substitui interinamente há um ano e meio, pode ser confirmado como novo presidente pelo Parlamento no domingo.

Economistas em Cuba descartam reformas econômicas estruturais no curto prazo e apostam em mudanças paulatinas em setores como agricultura.

Para Phil Peters, especialista em Cuba do Lexington Institute em Washington, o impacto da aposentadoria de Fidel ainda é incerto.

"Mas suas idéias ortodoxas perderão força em um governo que busca soluções para profundos problemas econômicos criados pela centralização e pelo planejamento excessivo, sem mencionar a falta de liberdade econômica", disse ele.

O gerente de uma empresa multinacional que opera em Cuba concorda.

"A transição em Cuba ocorreu um ano e meio atrás. Este é um passo na direção correta de dar continuidade às reformas que a economia tanto precisa", disse ele, que preferiu não se identificar.

DESAFIOS ECONÔMICOS

Oficialmente, a economia cubana cresceu 7,5 por cento em 2007. As principais fontes de entrada de divisas no país são o turismo, os serviços médicos e educacionais e as exportações de níquel.

Mas muitos dizem que o crescimento não se reflete em sua vida, já que é difícil, por exemplo, comprar alimentos importados vendidos em uma moeda 24 vezes mais cara que os pesos que recebem do Estado.

Uma das prioridades de Raúl é reativar a agricultura para dar mais opções de alimentação aos cubanos e economizar centenas de milhares de dólares em importações.

Ele também já sugeriu que acabará com o "excesso de proibições". Ele não especificou a que se referia, mas muitos interpretaram isso como uma vontade de simplificar os trâmites de migração e a liberalização dos mercados imobiliário e de automóveis.

Outras reformas econômicas mais estruturais não serão possíveis, segundo analistas, enquanto Fidel estiver vivo, já que ele mantém a chefia do Partido Comunista e uma enorme influência.

Frank Mora, analista político do National War College em Washington, não espera mudanças imediatas.

"Cuba não mudará de forma significativa agora nem quando Fidel Castro morrer. Os raulistas entendem os perigos de fazer muitas reformas econômicas rápido demais."

Raúl Castro promoveu nos últimos meses um profundo debate sobre os problemas da economia socialista e admitiu, por exemplo, que os salários estatais eram insuficientes.

Mora, do National War College, acredita que a aposentadoria de Fidel é a segunda fase de um processo de transição que começou com sua doença em julho de 2006.

"A terceira fase chegará quando ele morrer. Em cada etapa, os líderes pós-Fidel estão assumindo mais poder e influência para determinar o futuro de Cuba de uma forma que poderia parecer antiética segundo a visão de Fidel sobre como deve organizar-se o governo de Cuba", disse ele.

Peters, do Lexington Institute, lembra, no entanto, que Fidel anunciou sua retirada no momento que achou ser oportuno.

"Cuba tem seus problemas, muitos deles já identificados por seu próprios governo, e agora o socialismo cubano afundará, nadará ou se adaptará sem Fidel."

Reportagem adicional de Anthony Boadle

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