21 de Fevereiro de 2008 / às 22:19 / 10 anos atrás

ANÁLISE-Mesmo para indústria, dólar fraco tem lado bom

Por Isabel Versiani

BRASÍLIA, 21 de fevereiro (Reuters) - A persistente valorização do real, apesar dos prejuízos impostos a determinados setores da indústria, tem tido papel importante no controle da inflação e no aumento da produtividade de algumas empresas e não impediu o registro de recordes nas exportações.

Nesta quinta-feira, o dólar atingiu o menor valor frente ao real desde maio de 1999 e a previsão de analistas é de que a moeda norte-americana pode ceder ainda mais.

Para o coordenador do grupo de análise e previsões do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Marcelo Nonnenberg, entre perdas e ganhos, o balanço geral até o momento é positivo.

“Até agora está funcionando”, afirmou o economista, destacando como dado surpreendente o fato de a quantidade de bens exportados pelo país não ter caído nos últimos anos em meio ao encarecimento do real.

Uma das hipóteses para isso, segundo ele, é o fato de muitas empresas exportadoras serem também grandes importadoras de insumos --então os prejuízos com o dólar acabam sendo compensados pelos benefícios.

A grande importação de bens de capital também está contribuindo para a modernização e o aumento da produtividade das empresas, o que implica em redução de custos, de acordo com Nonnenberg.

Governo e analistas estimam que o saldo comercial cairá este ano, de um patamar de 40 bilhões de dólares em 2007, em função do aumento das importações. As exportações, no entanto, parecem fadadas a bater novo recorde --a meta do governo é elevá-las a 172 bilhões de dólares.

O crescimento é ancorado, em grande parte, nos bons níveis de preço das commodities, produtos que respondem por cerca de 65 por cento da pauta de exportações do país, segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

“Os preços favoráveis anulam a questão da defasagem cambial para as commodities”, afirmou o vice-presidente da entidade, José Augusto de Castro.

Ele alerta, no entanto, que como os preços das commodities são voláteis, particularmente diante de um cenário de desaceleração da economia mundial, o desempenho das exportações também não pode ser dado como certo.

No caso dos manufaturados, Castro argumenta que a maior parte das exportações (80 por cento) é feita por multinacionais fixadas no país, que também anulariam grande parte das perdas cambiais com operações no exterior.

Em outros setores, a perda de competitividade externa está sendo compensada pelo aquecimento da demanda doméstica em meio ao crescimento da renda e do crédito.

“A indústria está passando por um momento muito bom por conta da demanda interna, mas o ideal é que houvesse um crescimento mais equilibrado da demanda externa e interna”, afirmou o economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Paulo Mól.

Ele afirma que desde 2005 o número de empresas brasileiras que exportam está caindo, principalmente entre as pequenas e médias, e alerta que, no caso de uma eventual desaceleração da economia brasileira, reconquistar o mercado externo será um processo lento.

VÍTIMAS

O setor téxtil e de confecções é, ao lado do calçadista e moveleiro, tradicionalmente apontado como uma das grandes vítimas da valorização cambial.

Intensivos em mão-de-obra, os têxteis têm sofrido com a concorrência dos importados, que se beneficiam do câmbio. Como resultado, a balança comercial do setor passou de um superávit de cerca de 550 milhões de dólares em 2005 para um déficit de 648 milhões de dólares em 2007, segundo dados da Abit, associação nacional da indústria têxtil.

O presidente da entidade, Aguinaldo Diniz Filho, não questiona a política de câmbio flutuante, mas reivindica “condiçõs isonômicas de competição” --o que, segundo ele, demanda desonerações tributárias e um combate mais duro à pirataria e ao contrabando.

Edição de Cesar Bianconi e Daniela Machado

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