23 de Setembro de 2008 / às 14:50 / em 9 anos

Lula defende solução global para crise financeira

NOVA YORK (Reuters) - Em discurso na abertura da Assembléia-Geral da ONU, nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que as soluções para a crise financeira global sejam tratadas por organismos multilaterais.

Lula destacou que as intervenções do Estado, "contrariando os fundamentalistas do mercado", mostram que a política se sobrepõe à economia e que os governantes precisam agir para combater a "desordem" nas finanças internacionais.

Mencionando o economista brasileiro Celso Furtado, Lula disse que "é inadmissível que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas invariavelmente socializadas".

Para Lula, a resolução de crise tão grave não pode ser deixada aos fóruns econômicos, e exige a presença dos Estados nacionais.

"Os organismos econômicos supranacionais carecem de autoridade e de instrumentos práticos para coibir a anarquia especulativa. Devemos reconstruí-los em bases completamente novas", propôs Lula.

"Dado o caráter global da crise, as soluções que venham a ser adotadas deverão ser também globais, tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, sem imposições", acrescentou.

O presidente atribuiu à ONU a responsabilidade de convocar os países para contribuir na solução da crise.

"Das Nações Unidas, máximo cenário multilateral, deve partir a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós", afirmou.

DOHA E BIOCOMBUSTÍVEL

A crise dos alimentos também foi tratada no discurso de Lula, que abordou também os riscos para o comércio mundial sem um acordo em Doha.

"Minha obsessão com o problema da fome explica o empenho que tenho tido, junto a outros líderes mundiais, para chegar a uma conclusão positiva da Rodada Doha", disse Lula.

"Continuamos insistindo em um acordo que reduza os escandalosos subsídios agrícolas dos países ricos", frisou ele, destacando o impacto positivo que o acordo teria na produção de alimentos, sobretudo nos países pobres e em desenvolvimento.

Depois de destacar o papel que vem sendo cumprido por articulações dos países em desenvolvimento, como o G-20, os Brics e a Unasul, Lula conclamou a reforma do Conselho de Segurança da ONU, cuja representação, considerou, está "distorcida" e é "obstáculo" ao multilateralismo.

"As Nações Unidas discutem há 15 anos a reforma do Conselho de Segurança. A estrutura vigente, congelada há seis décadas, responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo", criticou Lula.

O presidente rebateu ainda o que classificou de tentativa de associar a crise dos alimentos aos biocombustíveis. Lula disse que a acusação não resiste à análise da realidade.

"O etanol de cana-de-açúcar diminui a dependência de combustíveis fósseis, regenera terras deterioradas e é plenamente compatível com a expansão da produção de alimentos", defendeu.

Lula disse que o Brasil quer aprofundar o debate sobre o biocombustível na conferência mundial sobre o tema, em novembro, em São Paulo.

Reportagem de Isabel Versiani e Walter Brandimarte, Edição de Mair Pena Neto

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