26 de Outubro de 2007 / às 19:07 / 10 anos atrás

Prestações menores levam imóvel a competir com veículos

Por Maurício Savarese

SÃO PAULO (Reuters) - As moradias para o chamado segmento econômico, desdenhadas até 2003 pelas principais empresas da construção civil, vão concentrar os lançamentos no setor no ano que vem, segundo executivos de companhias do ramo. Há espaço para crescer até conquistando clientes das montadoras de automóveis.

Após mais de uma década de estagnação, o setor de construção vive agora novo impulso --movido a estabilidade macroeconômica, maior crédito disponível, queda das taxas de juros e prazos mais longos de financiamento. Mas até este ano essas melhorias não chegavam a quem tem renda inferior a dez salários mínimos.

"Quando caem os juros, a economia leva até 12 meses para responder. Com os consumidores acontece o mesmo, e eles precisam de confiança para entrar em um financiamento", disse à Reuters Leonardo Correa, vice-presidente de Relação com Investidores da MRV Engenharia .

"2008 será o ano no qual quem tem menos vai confiar muito mais", afirmou o executivo da MRV, que é focada nesse segmento e lançou quase 500 milhões de reais em Valor Geral de Vendas (VGV) no primeiro semestre. A expectativa da empresa é de crescer mais de 30 por cento no ano que vem.

Prestações de 560 reais, como as que já existem em lançamentos da empresa, abrem caminho para futura concorrência com o setor automotivo, na avaliação de Correa.

Se confirmada a tendência de mais crédito e juros menores em 2008, diz ele, os imóveis devem rivalizar com as parcelas e prazos de financiamento dos carros, que já contam com planos em até 100 meses e pagamentos mensais de cerca de 150 reais por um veículo popular.

A previsão de expansão no segmento popular levou a Rossi, uma das maiores empresas de construção do Brasil, a lançar um plano de prestações a partir de 183 reais durante a obra, para projetos entre 45 mil e 130 mil reais. Nessa faixa, concentra-se a grande parte do déficit habitacional do país, estimado em mais de 7 milhões de unidades.

"Existem poucos projetos de alta renda, que eram o foco do mercado, para lançar em São Paulo ou no Rio. Por isso, olhamos para os imóveis populares ao mesmo tempo em que olhamos para o nosso processo de diversificação regional", disse o diretor de relações com investidores da empresa, Sérgio Rossi.

CONSOLIDAÇÃO

Além da necessidade de expansão regional, o executivo espera uma onda de consolidação que vai complementar operações de incorporadoras e construtoras capitalizadas com a emissão de ações no mercado brasileiro.

A Camargo Corrêa Desenvolvimentos Imobiliários (CCDI) comprou em agosto a construtora HM, especializada em projetos voltados ao segmento econômico e com atuação no Estado de São Paulo, e fixou a meta de dobrar o número de lançamentos para esse público em 2008 para 1,2 bilhão de reais.

"Faz sentido ter a mesma construtora sempre para diminuir custos nos projetos de baixa renda. Isso não acontece tanto na média e alta renda. Todo o mercado caminha para isso porque sem força no econômico não dá para crescer", afirmou Paulo Mazzali, diretor de Finanças e Relações com Investidores da CCDI, que deve investir em imóveis entre 50 mil e 100 mil reais.

Mesmo fora da construção e da incorporação, a Lopes, maior consultora e intermediadora de lançamento imobiliários do país, anunciou nesta semana a unidade Habitcasa, para imóveis entre 60 mil e 180 mil reais.

A Lopes, que de 2004 a 2006 teve metade das suas vendas em imóveis de até 150 mil reais, diz ter criado a empresa já com uma carteira de clientes de 41 incorporadoras brasileiras com atuação no segmento econômico.

Há quem prefira esperar para ver se a concorrência pela moradia popular em 2008 será tão pesada quanto as empresas dizem que será.

"Houve muita verbalização e ainda não senti a companhia dessas empresas todas", afirmou Correa, da MRV. "Se elas vierem mesmo, o mercado vai acomodar, mas nada tem garantia de sucesso", afirmou.

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