26 de Dezembro de 2007 / às 15:32 / 10 anos atrás

Fluxo positivo menor deve tornar real mais volátil em 2008

Por Silvio Cascione

SÃO PAULO (Reuters) - A enxurrada de dólares para o Brasil vai diminuir em 2008, enfraquecendo a tendência de queda da moeda norte-americana frente ao real e aumentando a volatilidade do mercado, segundo analistas.

As projeções para o final do ano, porém, variam por conta das incertezas sobre a crise global de crédito e a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos.

“Com a deterioração do balanço de pagamentos e a maior aversão a risco no mercado internacional vamos ter um mercado menos favorável em relação ao câmbio”, previu Jankiel Santos, economista do ABN Amro Real.

A poucos dias do ano novo, o dólar era cotado ao redor de 1,78 real, com baixa de mais de 16 por cento em 2007. A projeção do mercado no começo do ano, segundo o Banco Central, era de dólar a 2,20 reais no fim de dezembro.

O principal fator por trás da queda do dólar foi o ingresso extraordinário de recursos no país. Dados do BC mostram que o fluxo cambial caminha para terminar o ano com saldo positivo de cerca de 90 bilhões de dólares, muito mais do que o recorde anterior de 37 bilhões de dólares estabelecido em 2006.

O próprio BC já espera para 2008 o primeiro déficit anual desde 2002 nas transações correntes. Isso vai afetar o fluxo, mesmo que a conta financeira --que inclui o investimento estrangeiro direto e as operações em bolsa-- continue no azul.

Para Roberto Padovani, economista do banco WestLB do Brasil, “é razoável trabalhar com algo como 35 bilhões de dólares (de fluxo positivo)”, o que vai tirar força da tendência de apreciação do real.

“Neste ano, o dólar saiu de (cerca de) 2,15 (reais) e foi para (perto de) 1,75... No ano que vem não vejo esse espaço todo. Talvez caia, no máximo, uns 15 centavos.”

2008 MAIS VOLÁTIL

Além de cair menos, a moeda deve oscilar mais. “Na nossa visão, o principal efeito da mudança qualitativa nos fluxos será um aumento da volatilidade do real”, escreveram analistas do banco UBS Pactual em relatório.

Essa expectativa já se reflete nas posições montadas pelos agentes no mercado futuro. Os estrangeiros, que exibiam na metade do ano mais de 9 bilhões de dólares em posições vendidas, chegam ao final do ano praticamente equilibrados.

A conta engloba o mercado futuro de dólar e o de cupom cambial na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). A posição vendida em dólar reflete a confiança do investidor na queda da moeda norte-americana.

Os principais fatores que ainda vão garantir a entrada de recursos no país já são “velhos conhecidos”: diferencial de juros, que alimenta os investimentos de curto prazo, menor avaliação de risco do país e superávit comercial, que deve se manter mesmo com o aumento das importações.

Outro fator que pode contribuir para a valorização do real é a própria queda do dólar ante outras moedas. A aposta contra o dólar no exterior é tão forte que, segundo o relatório do UBS, “no momento a posição vendida em dólar é provavelmente a mais concorrida do mundo”.

Mas é justamente no exterior que reside, na opinião dos analistas, o principal risco para a tendência de baixa do dólar. “Enquanto não reduzir o ambiente de incerteza, o câmbio deve se segurar num patamar maior”, disse Leonardo Miceli, economista da consultoria Tendências.

A crise nos setores imobiliário e de crédito nos EUA pode empurrar a maior economia do mundo para uma recessão, segundo as avaliações mais pessimistas. Além disso, a liquidez global deve diminuir.

É por isso que Jankiel Santos prevê dólar perto de 2 reais no final de 2008. “Você teria um pouco menos de fluxo de curto prazo”, justifica.

Mesmo o cenário doméstico exige alguma cautela, já que o mercado tem poucas informações sobre a criação de um fundo soberano. Recentemente, a movimentação do governo em torno do assunto gerou especulações que chegaram a impulsionar o dólar.

Mas o restante do mercado ainda não aposta firme no cenário mais pessimista. O relatório semanal do BC, baseado em pesquisa com o mercado, estima dólar a 1,80 real daqui a um ano. Já Miceli, da Tendências, e Padovani, do WestLB, projetam dólar entre 1,60 e 1,70 real.

“(O ano) deve ter muita volatilidade, principalmente no começo. Mas na média de 2008, a gente vê uma apreciação (do real)”, afirmou Padovani.

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