BC endurece discurso e defende atuação "preventiva"

quinta-feira, 27 de março de 2008 14:35 BRT
 

Por Isabel Versiani

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central elevou suas projeções de inflação para este ano para níveis acima da meta estabelecida pelo governo e recrudesceu seu discurso de preocupação com o comportamento dos preços.

Em relatório divulgado nesta quinta-feira, o BC disse projetar uma inflação de 4,6 por cento ou 4,7 por cento para 2008, dependendo do cenário de juros e câmbio adotado. Ambas as estimativas superam o centro da meta, de 4,5 por cento.

Ao comentar o relatório, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Mario Mesquita, destacou a deterioração do cenário inflacionário desde o final do ano passado e frisou que é papel da autoridade monetária agir de "forma preventiva" para evitar que o comportamento dos preços se distancie das metas.

"Os bancos centrais têm que agir de forma preventiva. O Banco Central que espera a inflação divergir muito em relação à meta para atuar em geral acaba tendo que atuar de forma muito intensa, por muito tempo, o que tende a ser danoso do ponto de vista da atividade econômica", disse Mesquita a jornalistas.

O diretor disse haver na economia um "descompasso entre o ritmo de crescimento da oferta e da demanda" que cria o risco de que aumentos isolados de preços acabem se disseminando.

Ele acrescentou que a elevação das projeções do BC não é surpreendente dada a deterioração dos riscos inflacionários verificados desde o final do ano passado. Entre os fatores que têm pressionado a inflação, Mesquita citou "a intensificação da atividade econômica, as pressões sobre preços industriais no atacado, a elevação de vários preços de commodities e a elevação da própria expectativa de inflação".

Para o diretor, o alívio dado à inflação pelo crescimento das importações --que vem suprindo parte do aumento da demanda que não é suprida pelo mercado doméstico-- tem se reduzido.

"A contribuição do setor externo para mitigar pressões inflacionárias parece estar se tornando menos efetiva", disse Mesquita.

Ao comentar o papel do crédito sobre o aquecimento da demanda, o diretor disse, ainda, que ele tem sido menor determinante do que o crescimento da massa salarial. Mesquita argumentou que os bens duráveis têm participação inferior a 10 por cento no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), enquanto bens não-duráveis --cujas vendas, em geral, não são feitas a crédito-- têm participação de 26,5 por cento.