28 de Outubro de 2008 / às 16:26 / 9 anos atrás

ANÁLISE-Usinas de cana vislumbram tempos difíceis à frente

Por Inaê Riveras

SÃO PAULO, 28 de outubro (Reuters) - O aperto de crédito resultante da crise financeira global é o mais novo golpe sofrido pela indústria de álcool e açúcar do Brasil, que tem sofrido com margens de lucro em queda nos últimos dois anos.

As perspectivas brilhantes vistas há alguns anos parecem ter sido deixadas para trás de acordo com produtores e analistas que participam da Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Álcool.

Eles ainda acreditam no potencial do setor para o longo prazo, mas estimam que as dificuldades vão se aprofundar no curto prazo.

"O setor já estava em sua própria crise antes dos distúrbios de crédito, devido à oferta excessiva (de açúcar), à queda dos preços e à elevação dos custos dos insumos", disse José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente do grupo de usinas Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool.

O grupo está em negociações para vender sua participação de 50 por cento em uma usina de Penápolis (SP), mas acredita que o acordo é improvável por enquanto devido aos problemas financeiros.

"No momento existem mais pessoas que querem vender (empresas), e menos pessoas que querem comprar", disse ele, explicando que a chegada de grandes grupos ao setor elevou os preços de equipamentos, terras e insumos, consumindo a maior parte das margens de lucro dos grupos.

A Cosan (CSAN3.SA) (CZZ.N), uma das maiores empresas de açúcar e etanol do Brasil, pode ser um dos grupos interessados em oportunidades de aquisições durante a crise, afirmou o diretor vice-presidente geral, Pedro Mizutani.

"A Cosan sempre cresceu em crises", disse ele, afirmando que os planos de investimento para 2009 serão mantidos.

Mas também a Cosan está enfrentando dificuldades com financiamentos. E os planos de investimento para 2010, incluindo a entrada em operação de duas novas usinas em Goiás, podem ser adiados ou até mesmo cancelados dependendo das condições de mercado.

"Hoje estamos analisando o que é melhor: construir ou comprar (uma usina), ou poupar esse dinheiro. O setor como um todo tem que repensar os investimentos", disse ele.

Mizutani explicou que a Cosan tem um acesso mais fácil ao crédito que a maioria de seus rivais, mas isso não significa que os problemas financeiros não afetam o grupo. Nos últimos meses, a Cosan viu suas ações sofrerem uma forte queda já que investidores optavam por opções mais seguras.

"Se você pegar os preços atuais das ações da Cosan, eles não alcançam um quarto de nossos ativos", disse ele. Os investidores estão confusos com os preços das empresas. Após uma forte alta nos últimos anos, o mercado hoje não tem uma referência", disse ele.

FUSÕES E AQUISIÇÕES

A indústria de açúcar e álcool do Brasil passou por um boom nos últimos anos, e as empresas têm feito alavancagens com força para investir em expansão futura.

Muitas delas também estão enfrentando perdas devido à depreciação do real contra o dólar por causa de suas dívidas, já que a maior parte delas é em dólar.

"É um momento complicado. A indústria investiu muito para financiar os estoques e para lidar com uma crescente demanda no exterior. Além disso, elas acreditam que os ganhos em escala são uma maneira de assegurar a sobrevivência a longo prazo", disse o presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari.

"Elas fizeram alavancagem para investir. Os investimentos eram maiores do que o fluxo de caixa delas", disse ele.

Agora, com o aperto de crédito, os produtores que estão mais fracos financeiramente podem ser forçados a vender seu produto a qualquer preço para fazer dinheiro, provocando o aumento da volatilidade de preços, disse ele.

Isso já aconteceu no mercado local de álcool, onde os preços caíram recentemente apesar da perspectiva de baixa oferta no período de entressafra, entre janeiro e março de 2009.

Apesar de uma falta generalizada de crédito no curto prazo, é quase um consenso entre analistas e produtores que o setor verá um forte aumento de fusões e aquisições, já que empresas mais fracas viram alvo de aquisições de grupos maiores.

Eles também estimam um ritmo mais lento de investimentos em expansão.

"A maior consequência da crise financeira é a consolidação, substituir a expansão", disse o diretor da Organização Internacional de Açúcar (OIA), Peter Baron, destacando que isso pode não ser prejudicial por um tempo.

"No geral as pessoas estão mais cautelosas sobre onde vão investir dinheiro, não querem arriscar muito", disse Baron.

A expectativa é de que o investimento em novas usinas no Brasil alcance 33 bilhões de dólares até 2012, de acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar.

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