Preocupada com canaviais, Anistia fará estudo sobre setor

quarta-feira, 28 de maio de 2008 18:30 BRT
 

Por Eduardo Simões

SÃO PAULO (Reuters) - A Anistia Internacional pretende realizar um estudo específico para identificar eventuais abusos cometidos na indústria canavieira do Brasil, após divulgar seu relatório anual sobre direitos humanos em que aponta desde violações básicas até situações extremas, nas palavras do pesquisador da entidade para o país, Tim Cahill.

"Nós estivemos duas semanas atrás no interior de São Paulo e no interior de Mato Grosso do Sul começando uma pesquisa mais profunda sobre o impacto da indústria nos direitos humanos e essa é uma área que a Anistia vai ter interesse de seguir", disse Cahill à Reuters por telefone.

Cahill cita entre as violações casos de intimidações a sindicalistas e exemplos de trabalhadores que ganhavam de 7 a 15 reais diários para cortar 20 toneladas de cana por dia.

O pesquisador da Anistia criticou a falta de punições mais severas às empresas que violam os direitos humanos dos trabalhadores e afirmou que muitas das multas impostas sequer são pagas.

"As punições que estão sendo feitas contra as companhias que violam acabam sendo muitas vezes simbólicas", disse. "Nós sabemos que existe uma legislação esperando no Congresso que dá às autoridades o poder de confiscar as terras onde o trabalho escravo é utilizado. Nós acreditamos que isso seria um passo importantíssimo."

Cahill reconheceu que há autoridades se movimentando para combater o problema, e citou esforços para monitorar a situação principalmente em São Paulo. "Mas claramente os recursos são limitados, os espaços são enormes e o número de companhias trabalhando nessa área está crescendo de uma forma alarmante."

A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), que representa as usinas do centro-sul do país, divulgou nota dizendo que "ao privilegiar casos isolados e ainda sem conclusão judicial quanto a eventuais transgressões, o documento transmite uma visão equivocada e fora de contexto, que não representa a realidade que se observa hoje na vasta maioria do setor sucroalcooleiro brasileiro".

Para a Unica, os casos citados no relatório da Anistia Internacional estão entre as autuações realizadas em 2008 no setor agrícola como um todo, e os processos adminitrativos que apuraram os eventuais abusos ainda não foram concluídos.   Continuação...