30 de Setembro de 2008 / às 12:07 / em 9 anos

ESPECIAL-Encontros de Lula e Chávez mantêm equilíbrio regional

Por Fernando Exman

MANAUS, 30 de setembro (Reuters) - Nunca na história da América do Sul dois presidentes devem ter se reunido com tanta frequência quanto Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Hugo Chávez, da Venezuela. Há um ano, a cada três meses, os dois líderes se encontram para tratar das relações entre os países e da geopolítica do continente.

Com atuações políticas distintas, Lula e Chávez inspiram outros presidentes na América do Sul e dividem a liderança na região. Apesar das divergências de estilo e de pontos de vista em certas questões, buscam manter entendimento considerado essencial para o equilíbrio do continente.

Na terça-feira, os dois presidentes fazem em Manaus mais uma reunião bilateral, a quinta em pouco mais de um ano.

Do ponto de vista político, o fortalecimento dos laços com a Venezuela é considerado fundamental pelo Brasil. Segundo o Itamaraty, Lula tem aproveitado os encontros bilaterais com Chávez para defender a estabilidade da América do Sul.

Na avaliação de diplomatas brasileiros, a adesão da Venezuela ao Mercosul, a criação de um Conselho de Defesa Sul-Americano e a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) são meios de manter a situação da região sob controle.

A integração ganha maior importância no momento em que Chávez dá sinais de uma maior aproximação com a Rússia. As Forças Armadas venezuelanas e russas realizaram exercícios conjuntos no país vizinho, semana passada, e Chávez afirmou que pode ter ajuda russa para produzir energia nuclear.

“É sempre bom ter a Venezuela a seu lado. É essencial que ela se sinta em sua casa na América do Sul”, disse à Reuters um integrante do Ministério das Relações Exteriores, sob anonimato.

“O eixo da política externa brasileira na América do Sul passa por Argentina e Venezuela. Esses são os países que merecem um carinho especial”, acrescentou um diplomata do Itamaraty, explicando a regularidade dos encontros.

INQUIETAÇÕES E RUÍDOS

A primeira dessa série de reuniões, em 20 de setembro de 2007, foi marcada para por fim a um período de distanciamento entre os dois líderes. À época, o governo brasileiro estava insatisfeito com a influência venezuelana no processo de nacionalização dos recursos naturais da Bolívia.

Havia também outros ruídos nas relações bilaterais, como as críticas de Chávez ao etanol, uma das principais bandeiras do governo Lula, e ao Congresso brasileiro, que até hoje não aprovou o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul.

Ao fim do encontro, os presidentes, que frequentemente são apontados como dois pólos opostos de uma disputa pela liderança da América do Sul, selaram a reaproximação dos dois países.

“Sabe, Chávez, em política, quando dois dirigentes passam muito tempo sem se encontrar, começa a surgir entre eles uma série de inquietações, de insinuações”, disse Lula ao colega venezuelano durante declaração conjunta à época.

“As pessoas começam a falar em divergências, em disputas de lideranças. As pessoas começam a falar de coisas que eu tenho a consciência de que não passam pela sua cabeça e não passam pela minha cabeça”, complementou.

Nos encontros, além de projetos conjuntos, Lula tenta atender demanda venezuelana de reduzir o grande superávit brasileiro na balança comercial bilateral. No acumulado deste ano até agosto, o Brasil exportou 3,14 bilhões de dólares para a Venezuela. As compras de produtos venezuelanos pelo Brasil somaram 417,83 milhões de dólares no período. O saldo foi de 2,72 bilhões em favor do Brasil.

Mas nem sempre o comércio bilateral foi assim. A afinidade entre os dois presidentes ajudou a impulsionar esse intercâmbio, afirmam integrantes do governo brasileiro. Além disso, a Venezuela tem alto poder de compra devido ao petróleo mas depende de importações de praticamente todos os produtos.

Em 2003, ano de estréia do primeiro mandato de Lula, as vendas brasileiras à Venezuela chegaram a 608,23 milhões de dólares, contra 275,15 milhões de dólares em importações.

Não foi à toa, portanto, que no último domingo o Ministério do Poder Popular para a Comunicação e a Informação da Venezuela divulgou nota em que destaca a importância dessa parceria.

“Dentro dos programas de cooperação, se contempla a promoção das indústrias venezuelanas com a finalidade de equiparar a balança comercial”, sublinhou o comunicado.

Para o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil, Welber Barral, o país tem a ganhar com o fortalecimento da indústria venezuelana. O Brasil tende a aumentar os embarques de produtos de maior valor agregado.

“Vão aumentar as exportações de máquinas, equipamentos e serviços para a Venezuela. Isso passa também pelo reforço da marca Brasil”, comentou à Reuters o secretário.

No setor energético, no entanto, uma queda-de-braço entre Petrobras e PDVSA tem evitado que os empreendimentos sejam executados com a rapidez desejada pelos presidentes. As duas empresas têm parceria para construir a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, mas até hoje não fecharam o acordo de acionistas e o estatuto social da unidade. A Petrobras iniciou sozinha as obras de terraplenagem.

Por outro lado, o gasoduto do Sul, projeto idealizado por Chávez, não é tratado como prioridade pela Petrobras. Esse gasoduto, que interligaria Brasil, Venezuela, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, teria de passar pela Amazônia e por terras indígenas. Como as licenças para a construção desses trechos devem demorar a sair, o empreendimento é considerado “um sonho distante” pela chancelaria brasileira.

Edição de Mair Pena Neto

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