September 30, 2008 / 5:25 PM / 9 years ago

Juro de ACC para exportador de commodities sobe e afeta negócios

5 Min, DE LEITURA

Por Roberto Samora

SÃO PAULO, 30 de setembro (Reuters) - Os exportadores de commodities agrícolas do Brasil viram os juros das operações de crédito atreladas ao fechamento de câmbio (ACC) darem um salto desde que a crise financeira global se acentuou, e isso tem atrapalhado os negócios e diminuído o apetite exportador, disseram executivos de tradings.

"Os juros que antes pagávamos para fazer ACC (Adiantamento sobre Contrato de Câmbio)... eram de 4,5 por cento. Na semana passada, teve um banco que falou... 'vocês têm que pagar 14,5 por cento ao ano'...", disse nesta terça-feira um exportador de café, que pediu para não ser identificado.

Além disso, afirmou a fonte, antes o prazo de pagamento do ACC era de seis meses, e agora os bancos estão querendo um prazo maior, de 360 dias, o que torna menos interessante a operação.

"Com isso, mandamos o banco procurar outro cliente mais desesperado, que não é o nosso caso", acrescentou o trader.

A fonte observou que, com a "torneira financeira fechando", os bancos "estão com a faca e o queijo na mão".

"Em incerteza financeira, os bancos sabem que a gente precisa do dinheiro para comprar o café, para honrar compromissos. Então eles apertam os juros demasiadamente para aumentar o lucro deles...", concluiu.

Procurada, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informou que iria encaminhar o teor das reclamações para análise por um diretor e eventualmente se pronunciaria.

Um segundo exportador de commodities agrícolas, que também quis ficar no anominato, destacou que na medida em que essas linhas de captação ficam mais caras, diminui "muito o apetite em ter mais ACC" e o interesse de exportar também cai.

"Se você coloca na conta lá que exporta a 7 por cento (juros da operação), e agora tem que pagar 14 por cento... duplica o seu custo. Se a operação já era pouco rentável, agora está ainda mais difícil fazer isso", declarou.

Para um setor de commodities cujos preços não estiveram tão atraentes ao longo do ano, como o de açúcar, a falta de crédito para a exportação é um ingrediente negativo adicional.

"A oferta de crédito está ruim, difícil. Os bancos estão muito reticentes desde o início desta safra, e a situação de crédito vem piorando...", apontou Júlio Maria Borges, diretor da consultoria Job Economia.

Ele notou ainda que as tradings, para operações de pré-pagamento, também ficaram sem recursos.

"O crédito secou para tudo. Não tem linha de crédito há uma semana. O que tem é em reais, mas num custo bem mais alto que um e dois meses atrás", acrescentou um dono de usina de cana, que também preferiu ficar anônimo.

Embora ainda não tenha definido, o governo anunciou na segunda-feira que vem trabalhando em um plano para melhorar a oferta de crédito ao exportador.

As exportações do agronegócio respondem pela maior parte do superávit comercial do Brasil.

IMPORTADOR TAMBÉM SOFRE

A segunda fonte observou ainda que, em meio à turbulência global, também os importadores --americanos e europeus com linhas de crédito nos EUA ou na Europa-- também sofrem, o que afeta o negócio do lado da demanda.

"Os únicos do mercado que estão mais alheios à crise são aqueles que têm capital direto asiático, grupos dessa parte do mundo que estão segurando bem... O japonês ele não precisa tomar dinheiro na Europa, ele toma no Japão."

O nervosismo financeiro também afeta a precificação das commodities, o que eleva a cautela na realização dos negócios.

Para minimizar o impacto do crédito mais caro, disse a primeira fonte, o jeito é ser mais "seletivo" nas negociações. Além disso, o operador tem que ser muito preciso quanto ao momento de fechar uma operação, em um ambiente de elevada volatilidade, o que torna o trabalho mais estressante.

(Com reportagem adicional de Inaê Riveras)

Edição de Marcelo Teixeira

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