31 de Janeiro de 2008 / às 11:09 / 10 anos atrás

Ata do Copom deixa porta aberta para aumento do juro

Por Vanessa Stelzer e Daniela Machado

SÃO PAULO (Reuters) - O Comitê de Política Monetária (Copom) está pronto para agir caso a trajetória da inflação ameace descumprir a meta, apontou a ata da última reunião nesta quinta-feira. Para economistas, o tom do documento significa que o Banco Central está deixando a porta aberta para um aumento do juro.

Nem todos os analistas revisaram as projeções para a Selic em 2008 mas enfatizaram que, caso o cenário se deteriore, a primeira alta em mais de dois anos e meio pode vir já em março.

Segundo a ata, a prudência passa a ter "papel ainda mais importante" neste momento de deterioração do balanço dos riscos inflacionários.

"Mesmo considerando que, no momento, a manutenção da taxa básica de juros é a decisão mais adequada, o comitê reitera que está pronto para adotar uma postura diferente, por meio do ajuste dos instrumentos de política monetária, caso venha a se consolidar um cenário de divergência entre a inflação projetada e a trajetória das metas", mostrou o documento.

Esse foi o parágrafo apontado por analistas como o mais agressivo da ata e o que indica mais claramente a chance de uma elevação da Selic.

"Com a questão da linguagem mais 'hawkish' (agressiva), o BC deixa claro que a porta está aberta para subir o juro quando for necessário e diz para aqueles que esperavam alguma queda neste ano para descartar essa visão", disse Fabio Knijnik, economista do Bes Investimento.

Segundo o analista, os dados mais importantes a serem observados são internos, com destaque para a evolução das expectativas da inflação e da demanda.

Utilizando o cenário de referência, que leva em conta a atual Selic de 11,25 por cento e dólar a 1,75 real, o Copom disse que "a projeção para o IPCA em 2008 elevou-se sensivelmente em relação ao valor considerado na reunião de dezembro" e agora se encontra em torno da meta central de 4,5 por cento.

Na ata, o Copom também considerou "fundamental" ressaltar que os efeitos da política monetária sobre a atividade são defasados e, assim, "parte relevante" dos cortes já feitos na Selic ainda não se refletiu na economia.

"E tampouco os efeitos da atividade sobre a inflação tiveram tempo de se materializar por completo", acrescentou o colegiado do Banco Central.

MARÇO OU ABRIL

O Copom ainda terá vários dados de preços e atividade para analisar antes da próxima reunião, em 4 e 5 de março.

"Se o cenário se deteriorar até março, ele pode subir juros em março. Se continuar como está agora, pode de novo sinalizar na ata (de março) que a porta está aberta e que o viés é de alta", avaliou Flávio Serrano, economista-chefe da López León Markets.

Para Knijnik, do Bes, caso o cenário se deteriore, o BC deve ter uma decisão não unânime de manutenção da Selic na reunião de março, sinalizando mais claramente alta em abril.

O juro básico foi elevado pela última vez em maio de 2005. A partir daí, a Selic teve o mais longo período de cortes já visto, que durou até outubro do ano passado --mês em que passou a ser mantida nos atuais 11,25 por cento ao ano.

Sobre as turbulências externas, o Copom avaliou que o quadro de desaceleração dos Estados Unidos está consolidado, "mas continua a incerteza quanto à sua intensidade e duração". A ata completou, no entanto, que "a visão dominante parece ser a de que a desaceleração não seria prolongada".

O Copom disse ainda que uma desaceleração mundial mais intensa e generalizada teria impacto ambíguo sobre a inflação brasileira.

"Por um lado, ao reduzir as exportações líquidas, atuaria como fator de contenção da demanda agregada. Além disso, o potencial arrefecimento dos preços de algumas commodities importantes poderia contribuir para uma menor inflação doméstica", disse.

Por outro lado, a desaceleração econômica lá fora poderia reduzir a demanda por ativos brasileiros, com aumento da aversão ao risco.

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