31 de Maio de 2008 / às 14:15 / em 9 anos

Grupos criticam Mianmar por volta de população a local devastado

Por Aung Hla Tun

YANGON (Reuters) - Mianmar precisa parar de forçar que os sobreviventes do ciclone Nargis retornem para suas casas destruídas, onde eles poderão enfrentar mais miséria e até morte, disseram grupos de defesa dos direitos humanos neste sábado, enquanto uma autoridade dos Estados Unidos acusava o governo militar de ser “surdo e mudo” em relação aos apelos vindos do exterior.

A junta da ex-Birmânia começou a retirar as famílias de centros de socorro do governo na sexta-feira, aparentemente temendo que as vilas de tendas tornem-se permanentes.

“É irresponsável que os generais da Birmânia forcem as vítimas do ciclone a voltar para suas casas devastadas”, disse Brad Adams, diretor da Ásia do Human Rights Watch, em comunicado. “Alegar o retorno da ‘normalidade’ não é fundamento para levar as pessoas de volta para grande miséria e possivelmente, morte”, acrescentou.

Mianmar disse que os esforços de resgate e ajuda estão terminados e agora o foco é a reconstrução, mas a Organização das Nações Unidas disse que a escala de devastação significa que a fase de auxílio após a passagem do ciclone, que ocorreu no dia 2 de maio, deve durar seis meses.

Em um dos mais ríspidos comentários de Washington sobre a resposta de Mianmar ao ciclone, o Secretário de Defesa, Robert Gates, disse que dezenas de milhares de pessoas morreram devido à recusa do governo militar de permitir ajuda estrangeira.

Quase uma semana após o líder do governo, Than Shwe, ter prometido permitir que “todas” as equipes de ajuda humanitária legítimas entrassem no país, 45 pedidos de vistos da ONU foram aprovados na quarta-feira, mas as autoridades continuam dificultando o acesso ao delta do rio Irrawaddy.

Navios norte-americanos e de outros países ocidentais também foram impedidos de desembarcar equipes nas áreas devastadas.

“Sabíamos que teríamos que partir em algum momento, mas esperávamos mais apoio”, afirmou Kyaw Moe Thu, de 21 anos, enquanto deixava o campo de refugiados com cinco irmãos e irmãs.

Eles receberam 20 estacas de bambu e algumas lonas para reconstruir suas vidas na delta do Irrawaddy, onde 134.000 pessoas morreram ou estão desaparecidas. “É melhor que eles voltem às suas casas, onde são mais estáveis”, disse uma autoridade do governo.

SOBREVIVENDO DE PEIXES E RÃS

U Kyi, que fugiu com suas mulher para o campo de Kawhmu, ao sul de Yangon, dias após a tempestade, afirmou que preferia voltar para casa. “Infelizmente, quase toda a vila ainda está isolada e não podemos voltar”, afirmou o homem de 70 anos.

Uma autoridade da ONU em Yangon disse que o ritmo dos fechamentos pegou muitas agências de surpresa. “Sabíamos que isso aconteceria, mas não esperávamos que acontecesse tão rápido”, disse a autoridade, que não quis se identificar.

A ONU não confirmou rumores de que o despejo estava ocorrendo nos campos do governo ao longo do delta, mas a porta-voz da entidade, Marie Okabe, disse a repórteres em Nova York que “qualquer movimento de pessoas forçado ou coercitivo era inaceitável”.

As retiradas ocorreram depois que a imprensa oficial criticou a ajuda estrangeira e os pedidos dos doadores de ter acesso ao delta do rio, dizendo que as vítimas do ciclone poderiam “cuidar de si mesmas” e que não precisavam de “barras de chocolate” dos países estrangeiros.

Um editorial na sexta-feira no jornal Nova Luz de Mianmar disse: “Os cidadãos de Mianmar podem facilmente conseguir peixes para comer pescando nos campos e valas” e afirmou ainda que “rãs comestíveis são abundantes”.

Em Cingapura, o secretário de Defesa dos EUA, comparou a relutância de Mianmar em aceitar ajuda dos militares dos EUA com a boa vontade da Indonésia e Bangladesh após o tsunami de 2004 em Aceh e um ciclone em Bangladesh em novembro passado.

“Com a Birmânia a situação tem sido bem diferente --ao custo de milhares de vidas”, disse Gates em um encontro anual de autoridades de segurança e defesa da Ásia.

(Reportagem adicional de Andrew Gray, Jan Dahinten e Melanie Lee em Cingapura)

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