ESTREIA-Em "O Destino de Júpiter", irmãos Wachowski fazem as pazes com ficção científica

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015 16:28 BRST
 

SÃO PAULO (Reuters) - Júpiter Jones (Mila Kunis) é filha de um astrônomo inglês e de uma matemática russa, na barriga de quem imigra para os Estados Unidos depois do assassinato do pai, antes mesmo de nascer. Seu dia se resume a trabalhar como faxineira com a mãe – o que, mais tarde, a transformará numa espécie de Cinderela intergaláctica em "O Destino de Júpiter”, dos irmãos Andy e Lana Wachowski ("Matrix").

O príncipe encantado de Júpiter, no entanto, não é nobre, mas um ser geneticamente modificado para melhor desempenho como guerreiro, Caine (Channing Tatum). A vidinha sem graça da protagonista muda quando logo se descobre que ela é uma rainha – afinal, sua genética a aponta como a próxima na sucessão de um planeta distante.

Isso chama a atenção dos outros três nobres que poderiam assumir o poder no lugar dela, três irmãos: a frívola Kalique (Tuppence Middleton), o playboy Titus (Douglas Booth) e o ambicioso Balem (Eddie Redmayne, que se tornou o nome da vez depois de protagonizar “A Teoria de Tudo”, pelo qual concorre ao Oscar).

Custa um pouco para a narrativa – também assinada pelos irmãos Wachowski – encontrar o seu prumo. A introdução – mostrando o cotidiano de Júpiter e lutas entre personagens sem muita função – logo dá espaço a uma trama que tem muito a dizer sobre a globalização do nosso mundo. A trinca de nobres elitistas tem um interesse especial pela Terra – da qual Júpiter é a guardiã.

Como Kalique explica, os seres de seu planeta – supostamente mais desenvolvido, avançado e inteligente do que o nosso – descobriram que o maior bem existente é o tempo. Há um subtexto metafísico sobre reencarnação em “O Destino de Júpiter” que pode – e deve! – ser completamente ignorado.

O mesmo que transformou “A Viagem” – o filme anterior da dupla de cineastas, codirigido pelo alemão Tom Tykwer – num filme chato e raso. Aqui, eles reencontram o mesmo, por assim dizer, teor político que infiltra seus filmes mais famosos - e “V de Vingança” não fica de fora.

Para que a elite daquele planeta possa desfrutar de séculos de vida e beleza, eles se valem de um líquido que, para cuja produção de um único frasco não muito grande, necessita da morte de 100 seres humanos.

E onde existem (até onde sabemos) humanos em abundância senão na Terra? Enfim, os habitantes do planeta tornam-se matéria-prima a ser explorada por um império galáctico. Nada muito diferente de qualquer potência em busca de lucros em países (no caso planetas) menos abastados – seja com as especiarias da época das navegações, o imperialismo na África, ou a exploração do petróleo no nosso tempo.

Dentro da própria ficção científica, a “space opera” sempre sofreu uma espécie de preconceito – daí até mesmo o nome pejorativo, cujo termo “opera” nada tem a ver com o gênero musical erudito, mas com as “soap operas” (rádio e telenovelas).   Continuação...

 
Atriz Mila Kunis durante pré-estreia de "O Destino de Júpiter", em Hollywood, na Califórnia, Estados Unidos, nesta semana. 02/02/2015 REUTERS/Mario Anzuoni