ESTREIA-Ben Stiller e Naomi Watts protagonizam filme sobre crise da meia-idade

quarta-feira, 17 de junho de 2015 16:36 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - O escritor francês Victor Hugo disse certa vez que “os quarenta são a velhice da juventude” e é bem esta sensação de finitude que os protagonistas de “Enquanto Somos Jovens” (2014) sentem.

Sem filhos por opção – no momento, porque Cornelia (Naomi Watts) teve muita dificuldade para engravidar antes – e sem realizar as mesmas coisas do início do relacionamento – não viajam, por exemplo, porque Josh (Ben Stiller) nunca termina o seu documentário –, o casal novaiorquino quarentão se sente estagnado, constatando que eles não alcançaram muitos dos objetivos que traçaram.

Não é surpresa saber que este é o novo filme de Noah Baumbach, cineasta com uma filmografia dedicada às crises de diversas fases: o autobiográfico “A Lula e a Baleia” (2005), baseado em sua própria adolescência conturbada pela separação dos pais; o sucesso indie “Frances Há” (2012), retrato agridoce de uma geração que, aos vinte e tantos anos, vê a realidade sobrepor seus grandes sonhos; além de “Margot e o Casamento” (2007) e “O Solteirão” (2010), que já flertavam com as crises de meia-idade.

Agora que está com 45 anos, o diretor volta a extrair de suas próprias experiências – ele namora desde 2011 a atriz de 31 anos Greta Gerwig, protagonista de seus dois últimos longas e do próximo, “Mistress America” (2015) – a inspiração para o seu recente trabalho. Com a diferença que, neste, o foco recai muito mais no conflito de gerações.

Quando seus amigos Marina (Maria Dizzia) e Flatcher (Adam Horovitz, o Ad-Rock do Beastie Boys, ícone da geração X) têm um bebê e passam a dedicar todo seu tempo para a criança, além de instigá-los a terem um filho também, Cornelia e Josh passam a olhar para si e perceber como chegaram aos 40. Se “envelhecer é cansar de si mesmo”, segundo o poeta e crítico literário Mário da Silva Brito, os dois, esgotados com sua própria rotina, veem no jovem casal Darby (Amanda Seyfried) e Jamie (Adam Driver) uma chance de renovação.

Consumidores adictos das novas tecnologias, ficam encantados com os novos conhecidos, não só porque o rapaz é um documentarista iniciante que diz ser fã de Josh, mas por causa do jeito descolado dos dois. Os jovens moram em um loft junto com outra garota (Dree Hemingway), onde montam seus próprios móveis, usam máquina de escrever e mantêm uma coleção de vinis e VHS.

Para completar todo o estereótipo hipster – lembrando que esse estilo de vida alternativo, que se tornou um termo pejorativo hoje em dia, surgiu em Williamsburg, no Brooklyn, bairro retratado na história – usado por Baumbach, Jamie usa chapéus vintage e Darby faz sorvetes artesanais.

Há também certos excessos na sequência em que os novos amigos levam Josh e Cornelia a um ritual xamânico com ayahuasca, digna dos filmes de Judd Apatow. Mas, diferente de “Bem-Vindo aos 40 Anos” (2012), escrachada comédia com temática parecida daquele diretor e produtor, Noah prefere as situações cotidianamente inusitadas e os diálogos certeiros e refinados, que remetem a outro cineasta.

“Enquanto Somos Jovens” é, talvez, um dos longas mais “woodyallenianos” que não foram dirigidos pelo próprio Woody Allen, com uma clara referência a “Crimes e Pecados” (1989) em sua subtrama metalinguística.   Continuação...

 
Ator Ben Stiller em lançamento do filme "Enquanto Somos Jovens", em Nova York.  23/3/2015.   REUTERS/Shannon Stapleton