1 de Outubro de 2014 / às 15:13 / em 3 anos

ENFOQUE-Uma ambientalista estrategista tenta chegar à Presidência do Brasil

Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB, durante evendo de campanha em São Paulo em 30 de setembro de 2014. REUTERS/Nacho Doce

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Em março de 2003, três meses depois de sua posse como ministra do Meio Ambiente, Marina Silva reuniu meia dúzia de assessores em seu ministério em Brasília.

     Ela disse que o novo governo estava prestes a embarcar em um projeto faraônico de infraestrutura prometido pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o Nordeste árido, a Transposição do rio São Francisco. O projeto, um esforço ainda em curso para redirecionar água de um dos maiores rios do Brasil, já tinha sido contestado por ambientalistas, incluindo a própria Marina.

     Em vez de discorrer sobre o que faria para interromper o projeto, a ex-ativista disse que não iria se opor ao empreendimento. A ministra, em vez disso, trabalharia para torná-lo tão sustentável quanto fosse possível.

“Fiquei chocada”, diz a ex-diretora do Greenpeace e ex-secretária de Qualidade Ambiental do ministério Marijane Lisboa. “Em vez de lutar, ela disse que o papel do ministério era de mitigar (os riscos ambientais do projeto).”

Marijane não seria a única pessoa a ser surpreendida por Marina, ex-seringueira e empregada doméstica que agora ocupa uma posição de destaque na disputa pela Presidência do Brasil. Antes considerada uma esquerdista radical, a pioneira da conservação da Amazônia e um ícone do movimento ambiental global ao longo dos anos tem marchado para uma política mais ao centro.

     Com 56 anos e quatro filhos, Marina, evangélica, têm aparecido nas pesquisa de intenção de voto em segundo lugar na corrida presidencial, atrás da presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição.

     Ela foi alçada à segunda colocada na disputa por uma parcela relevante de eleitores descontentes com a corrupção, a política de troca de favores e por serviços públicos ineficientes, que no ano passado desencadearam protestos populares em massa. A agitação nas ruas atingiu Dilma, com a confiança já ferida por uma economia estagnada, e criou a primeira ameaça real ao PT desde que assumiu o governo em 2003.

Mas a ascensão de Marina é também fruto de uma política pragmática, mesmo que seus rivais a qualifiquem como inexperiente ou, pior, errática, por ter se filiado a três partidos nos últimos anos e por uma ruptura com o próprio PT, que foi sua casa por mais de duas décadas.

     Agora candidata à Presidência pelo PSB, Marina promete expandir programas sociais populares, mesmo cortando despesas do governo. Ela buscaria investimentos em energia renovável, de fontes como a biomassa e a solar, mas promete continuar a desenvolver a exploração do petróleo na camada do pré-sal.

“Por que uma atividade tem que ser em prejuízo da outra?”, indagou ela durante entrevista recente à Reuters, no Rio de Janeiro. “A boa economia é aquela que é diversificada.”

     A mudança de Marina que é um ultraje para antigos seguidores militantes atrai outros eleitores, como evangélicos, a comunidade financeira em São Paulo e jovens cansados ​​do status quo.

     Se for eleita, seu maior desafio será atrair apoio para garantir governabilidade em um Brasil indisciplinado politicamente, com uma democracia multipartidária. Sua promessa de uma “nova política”, transcendendo os interesses partidários e as coalizões no Congresso, teria de enfrentar a oposição de partidos grandes e pequenos.

    

     DO ATIVISMO AO PRAGMATISMO

     Em entrevistas, mais de uma dúzia dos que conhecem Marina a descrevem como uma dirigente o suficiente para liderar e flexível o bastante para fazer concessões quando um argumento oposto prevalece. Eles dizem que a vivência de cinco anos como ministra, até sua saída em 2008, demonstram sua capacidade para definir prioridades, perseguir objetivos e ceder terreno quando necessário.

     “Chame ela de qualquer coisa, menos de burra”, diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que entrou em confronto com Marina durante a administração Lula sobre a lei de transgênicos. “Ela sabe que um militante não pode ser presidente.”

     A história notável de vida de Marina, que sobreviveu a doenças na Amazônia e foi analfabeta até adolescente para então se tornar senadora, não é novidade na história política recente do Brasil. Mas sua evolução a partir de ativista para possível presidente ainda é um enigma para muitos que pensavam que ela seria incapaz de entrar no jogo político do toma lá, da cá.

     Em 2002, os brasileiros elegeram Lula, um ex-metalúrgico e líder sindical. Depois de nomear um ministro das Finanças amigável ao mercado, que acalmou temores de que o presidente seria irresponsável do ponto de vista fiscal, Lula fez de Marina a segunda indicação de seu gabinete, recebendo elogios de conservadores ambientais em todo o mundo.

     Ao assumir o cargo em janeiro de 2003, Marina disse aos chefes de departamento do ministério que traçassem as prioridades para o mandato de quatro anos. O presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), teve que dedicar muito de seu tempo para domar a economia instável do Brasil e não conseguiu dar muita atenção às questões ambientais.

     Marina realizou grandes reuniões e ouviu propostas sobre a destinação de resíduos, gestão de bacias hidrográficas e terras.

     Mas ela tinha uma preocupação primordial: conter o desmatamento. Madeireiros e fazendeiros estavam devastando na Amazônia uma área equivalente ao tamanho da Bélgica todos os anos.

Marina propôs a criação de metas para reduzir a taxa de desmatamento. Ela disse a uma comissão para traçar um plano de metas e rejeitou a ideia de assessores que sugeriram que tais objetivos, se não fossem cumpridos, poderiam condená-la politicamente.

     “É para sair fracassado mesmo se não conseguirmos”, disse Marina, lembra o ex-secretário de Biodiversidade e Florestas João Paulo Capobianco, ainda um dos assessores mais próximos de Marina. “Podemos ter sucesso em outras áreas, mas é pelo desmatamento que seremos avaliados.”

     Alguns assessores reclamaram que ela dava pouca atenção a qualquer outro tema.

     Sobre a Transposição do rio São Francisco, Marina ofereceu resistência esparsa, fixando-se em um compromisso de que partes poluídas ao longo do rio seriam limpas durante a execução do projeto. “O tema da Amazônia pesava demasiado na gestão”, diz o ex-secretário de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável Gilney Viana.

     Logo, os conflitos políticos ocuparam a agenda de Marina.

     As grandes reuniões deram lugar a discussões individuais com assessores capazes de ajudá-la a negociar com o resto da administração Lula.

“Ela passou mais tempo cortejando Lula e outros ministros do que executando o ministério”, lembra um assessor, que pediu para não ser identificado por ainda ter ligações com o governo.

    

     ADVERSÁRIOS PODEROSOS

     O Ministério da Agricultura, uma força poderosa em um dos maiores exportadores mundiais de grãos, foi particularmente problemático.

     Logo no início, o Ministério da Agricultura tentou convencer Lula de que a venda de soja geneticamente modificada em crescimento no Sul do Brasil deveria ser permitida. As chamadas sementes “Maradona”, contrabandeadas da Argentina, ainda eram ilegais no Brasil, mas agricultores as plantavam mesmo assim.

     Marina fez lobby contra a sua venda. Ela também procurou garantir que seu ministério controlasse um novo órgão do governo para regular culturas geneticamente modificadas.

     Ela perdeu em ambos os casos.

Em protesto, alguns ambientalistas pressionaram-na para renunciar.

Em vez disso, ela conseguiu uma mudança na lei obrigando fabricantes de alimentos a indicar no rótulo dos produtos a presença de ingredientes geneticamente modificados. “Ela sabia como negociar”, diz Beto Albuquerque, um ex-deputado federal pelo Rio Grande do Sul, onde a soja foi plantada.

     Antes rival de Marina sobre os transgênicos, Albuquerque é agora companheiro de chapa dela.

     Enquanto isso, Marina avançava contra o desmatamento.

     Ela convenceu outras 12 esferas federais, do Exército ao Ministério da Justiça, a ajudar na iniciativa. O Ministério da Ciência e Tecnologia, dirigido por um promissor jovem político chamado Eduardo Campos, cedeu satélites do governo para monitorar desmatamentos.

     Em 2006, o desmatamento caiu para metade da taxa vista em 2004.

Neste meio tempo, um grupo de ministros convenceu Lula a tirar da gaveta uma série de projetos de infraestrutura, incluindo uma polêmica hidrelétrica no Pará, a usina de Belo Monte.

     Alguns ministros, incluindo Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, pressionavam por um licenciamento ambiental rápido para acelerar as obras. Marina resistiu, irritando Dilma e grandes empreiteiras que ajudam a financiar o PT.

     Quando Lula foi reeleito, Marina foi a última ministra reconduzida ao cargo.

     No fim de 2007, a redução do desmatamento estagnou, em parte por causa da especulação imobiliária com terras perto de florestas que poderiam vir abaixo para que fossem erguidos projetos de infraestrutura. Marina convenceu Lula a introduzir medidas para bloquear o crédito para aqueles comprando produtos resultantes do desmatamento ilegal da floresta amazônica.

     Quando os agricultores se queixaram, Lula considerou revogar as medidas.

     Em maio de 2008, Marina pediu demissão. “Perco a cabeça”, disse ela, “mas não perco o juízo”.

Onde alguns viram a derrota, os adeptos viram artimanha.

“Se Lula revogasse as medidas, ele levaria a culpa quando o desmatamento piorasse”, diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo, que ainda aconselha Marina. “Ou ele poderia manter as medidas e ter as glórias da redução.”

Lula acabou não revogando as medidas e o desmatamento durante seus dois mandatos diminuiu 75 por cento.

    

     “VISÃO ESTRATÉGICA”

     Após a separação, Marina encontrou uma breve casa no Partido Verde (PV). Mais importante, ela cortejou aliados, especialmente o bilionário Guilherme Leal, um dos fundadores da Natura, um império de cosméticos com muitos de seus produtos com ingredientes da Amazônia.

     Leal diz que admirava a “visão estratégica” de Marina por um país com a maior floresta tropical e abundantes fontes mundiais de água e de energia limpa. Ele também admirava sua agilidade política.

     “Está no DNA”, diz Leal. “Ela põe a faca nos dentes. Não é o poder pelo poder, mas é ação política.”

     Leal financiou a campanha presidencial de Marina em 2010 e foi vice na chapa do PV. Ele também introduziu Marina a um grupo influente de economistas, empresários e financistas.

     Agora uma parte importante da base de poder de Marina, essas pessoas repelem antigos admiradores dela.

    O teólogo e filósofo Leonardo Boff, que conhece Marina desde jovem, diz que ela se cercou de “neoliberais” --tipos capitalistas impopulares com alguns esquerdistas.

     Ainda assim, Marina surpreendeu. Ela teve 20 por cento dos votos em 2010, muito mais do que o esperado.

     Líderes políticos que cresceram no PV se irritaram com uma recém-chegada que estava ofuscando a liderança da legenda. Marina deixou o PV e tentou formar um novo partido.

     Quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu no ano passado que a Rede Sustentabilidade não poderia ser criada para esta eleição, Marina se virou para o outro aliado: Campos, o ex-ministro da Ciência e Tecnologia, até então um popular governador de Pernambuco e ele próprio um aspirante presidencial.

     Campos fez Marina sua candidata à vice-presidência pelo PSB.

     Em agosto, após Campos morrer em um acidente de avião, Marina assumiu a candidatura à Presidência pelo PSB.

     Em um comício recente no Rio, ela denunciou o “marketing selvagem” por adversários que sugeriram que ela acabaria com a exploração do petróleo no pré-sal.

Ela criticou o PT, ele mesmo vítima do alarmismo por opositores no passado, por classifica-lá como radical.

“Eu lutei muito quando faziam a mesma coisa que estão fazendo comigo quando o Lula era candidato”, disse ela.

“O mesmo punhal enferrujado está sendo agora usado contra mim”.

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