ENFOQUE-Uma ambientalista estrategista tenta chegar à Presidência do Brasil

quarta-feira, 1 de outubro de 2014 12:11 BRT
 

Por Paulo Prada

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Em março de 2003, três meses depois de sua posse como ministra do Meio Ambiente, Marina Silva reuniu meia dúzia de assessores em seu ministério em Brasília.

     Ela disse que o novo governo estava prestes a embarcar em um projeto faraônico de infraestrutura prometido pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o Nordeste árido, a Transposição do rio São Francisco. O projeto, um esforço ainda em curso para redirecionar água de um dos maiores rios do Brasil, já tinha sido contestado por ambientalistas, incluindo a própria Marina.

     Em vez de discorrer sobre o que faria para interromper o projeto, a ex-ativista disse que não iria se opor ao empreendimento. A ministra, em vez disso, trabalharia para torná-lo tão sustentável quanto fosse possível.

"Fiquei chocada", diz a ex-diretora do Greenpeace e ex-secretária de Qualidade Ambiental do ministério Marijane Lisboa. "Em vez de lutar, ela disse que o papel do ministério era de mitigar (os riscos ambientais do projeto)."

Marijane não seria a única pessoa a ser surpreendida por Marina, ex-seringueira e empregada doméstica que agora ocupa uma posição de destaque na disputa pela Presidência do Brasil. Antes considerada uma esquerdista radical, a pioneira da conservação da Amazônia e um ícone do movimento ambiental global ao longo dos anos tem marchado para uma política mais ao centro.

     Com 56 anos e quatro filhos, Marina, evangélica, têm aparecido nas pesquisa de intenção de voto em segundo lugar na corrida presidencial, atrás da presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição.

     Ela foi alçada à segunda colocada na disputa por uma parcela relevante de eleitores descontentes com a corrupção, a política de troca de favores e por serviços públicos ineficientes, que no ano passado desencadearam protestos populares em massa. A agitação nas ruas atingiu Dilma, com a confiança já ferida por uma economia estagnada, e criou a primeira ameaça real ao PT desde que assumiu o governo em 2003.

Mas a ascensão de Marina é também fruto de uma política pragmática, mesmo que seus rivais a qualifiquem como inexperiente ou, pior, errática, por ter se filiado a três partidos nos últimos anos e por uma ruptura com o próprio PT, que foi sua casa por mais de duas décadas.   Continuação...

 
Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB, durante evendo de campanha em São Paulo em 30 de setembro de 2014. REUTERS/Nacho Doce