3 de Outubro de 2014 / às 22:34 / 3 anos atrás

ESPECIAL-Por que Marina pode ser a 1ª presidente negra do Brasil, mas sem apoio de negros

SÃO PAULO (Reuters) - Os brasileiros podem fazer história este mês caso Marina Silva (PSB), uma filha de seringueiros pobres da Amazônia, seja eleita a primeira presidente negra do país.

Ainda assim, Marina encontra-se atrás da presidente Dilma Rousseff (PT), que tenta a reeleição pelo PT, nas preferências entre os eleitores de ascendência africana.

A desvantagem, que contrasta com o que aconteceu no caso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que foi eleito em 2008 e reeleito em 2012 com massivo apoio dos norte-americanos negros, pode custar a Marina a vitória em uma acirrada corrida presidencial.

As razões por trás das dificuldades de Marina ecoam com eloquência a própria história brasileira e sua complexa relação com as questões raciais, assim como espelha o recente progresso social que tem rendido à presidente Dilma favoritismo para vencer a reeleição, apesar de uma economia em baixo crescimento.

Nas últimas semanas, a Reuters entrevistou mais de vinte brasileiros negros em três cidades. Muitos dizem que ficariam orgulhosos em ver Marina vencer --especialmente em um país no qual os negros têm sido historicamente sub-representados em governos, universidades e diversos outros setores da sociedade.

No entanto, eles também afirmam que estão mais focados na economia do que em qualquer outro fator. Desde que assumiu o poder em 2003, o PT promoveu grandes avanços na redução da pobreza, especialmente entre negros.

“Ninguém quer voltar ao passado”, disse Gustavo Leira, um servidor público aposentado de 71 anos, em Brasília. A raça da Marina é importante, disse ele, “mas não a coisa mais importante”.

Marina, cuja plataforma possui um posicionamento mais ao centro e favorável ao mercado, tem em grande medida evitado tocar no tema racial, refletindo uma longa tradição na política e na sociedade brasileiras. A esmagadora maioria dos brasileiros evita discutir questões raciais, preferindo, em vez disso, falar em termos de classe social.

Ao longo dos séculos, o Brasil recebeu 10 vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Hoje, os negros brasileiros têm probabilidade três vezes maior do que brancos de sofrer com a pobreza extrema.

Perguntada em uma entrevista à Reuters na semana passada o que significaria ser a primeira presidente negra do Brasil, Marina respondeu: “Não somente (isso)... Eu também seria a primeira ambientalista”.

”Tenho muito orgulho de minha identidade como mulher negra“, acrescentou ela. ”Mas não faço uso da minha fé ou minha cor. Vou governar para todos. Para negros, brancos, crentes e descrentes, independente de sua cor ou condição social”, afirmou.

“MAIOR MISTÉRIO”

A atitude da ex-senadora é consistente com a espécie de política inclusiva praticada por Marina, que tem atraído apoio desde cristãos evangélicos, a jovens urbanos conectados à Internet e magnatas do setor bancário, entre outros.

Mas tal posicionamento tem também confundido alguns eleitores e analistas políticos, que dizem que Marina perde uma oportunidade de ouro para intensificar laços com um imenso grupo demográfico que apoia, em sua maioria, a candidata da situação.

Um destacado assessor de Dilma classificou a relutância de Marina em debater sua raça “o maior mistério da campanha”.

Alguns, especialmente os jovens, pedem que Marina seja mais assertiva sobre suas origens. Segundo eles, o crescimento dramático nas matrículas de negros em universidades, graças em parte às recentes cotas raciais, tem fomentado uma crescente consciência racial. Outros líderes negros de destaque têm também vindo a público, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, pedindo aos brasileiros que discutam mais abertamente as questões raciais.

Mas a mudança tem sido lenta. De fato, embora muitas pesquisas de intenção de voto perguntem aos entrevistados sobre raça e detalhem seus resultados de acordo, a liderança de Dilma entre os negros mal tem sido comentada na mídia brasileira.

Regina Collson, uma estudante universitária de 23 anos, disse que tenta convencer seus companheiros de classe a votar em Marina, ao enfatizar como a origem negra da ex-senadora e sua juventude pobre marcariam uma “grande mudança” na política tradicional.

“Ela traria uma perspectiva diferente”, disse Collson. “Mas as pessoas não estão falando sobre isso (nesse sentido). Isso me irrita.”

“POBREZA NO BRASIL TEM ROSTO”

Pesquisas indicam que dificilmente esta eleição será decidida no primeiro turno, no domingo.

Dilma tem ganhado força nas últimas semanas, e as últimas pesquisas tem colocado a petista com cerca de 7 pontos de vantagem sobre Marina em um eventual segundo turno, marcado para 26 de outubro. [nL2N0RX2ZG]

Entre os eleitores que se dizem negros ou pardos a presidente Dilma tem vantagem sobre Marina, enquanto que entre os brancos Marina aparece em vantagem em uma pesquisa e empatada tecnicamente com a presidente em outra. Os negros e partos representam um pouco mais da metade da população brasileira, enquanto os brancos respondem por 40 por cento. Asiáticos, indígenas e outros grupos completam o restante do eleitorado.

Em várias propagandas de TV, Dilma alertou que o voto em Marina tem o potencial de colocar em perigo os ganhos sociais da última década. O PT também tem relacionado a defesa da ex-senadora de uma política fiscal mais controlada e sua amizade com Neca Setúbal, uma das herdeiras do banco Itaú Unibanco, a um sinal de que ela governaria para os ricos.

Marina tem negado tais afirmações, destacando seu próprio passado socialista e o fato de que ela mesma foi integrante do PT até 2009.

Enquanto isso, o governo de Dilma não deixa de ressaltar suas conquistas em termos de questões raciais.

“A pobreza no Brasil tem um rosto, e esse rosto é negro”, disse Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em entrevista recente.

Ela destacou dados mostrando que mais de 22 milhões de pessoas foram retiradas da miséria na última década, graças ao crescimento econômico robusto e a programas sociais. Dessas, 78 por cento são negras e pardas.

“Temos investido nisso (redução da pobreza) como ninguém”, disse Tereza. “Então as pessoas dizem: ‘Minha vida melhorou. Vou votar em outro candidato? Só porque ela é negra?'”

Tais questões têm levado alguns a comparar a candidatura de Marina à histórica campanha de Barack Obama nos Estados Unidos.

Em 2008, Obama recebeu 95 por cento dos votos dos eleitores negros. A vantagem, somada ao apoio recebido de dois terços dos eleitores hispânicos, o ajudou a superar a desvantagem de 12 pontos percentuais entre os eleitores brancos. As margens foram em grande parte siminares na reeleição de Obama em 2012.

Apesar de Obama não ter feito das questões raciais um tema predominante em sua campanha, ele abordou o assunto em momentos cruciais –incluindo no famoso discurso de março de 2008, no qual fez referência à raiva sentida por muitos na comunidade negra e sobre como era ser filho de uma mãe branca do Kansas e um pai negro do Quênia.

Marina também possui uma origem mestiça --assim como muitos, se não a maioria, dos brasileiros.

Desde que os portugueses começaram a trazer escravos africanos para o Brasil no século 16 para trabalhar em lavouras como as de cana-de-açúcar, as raças tem se misturado muito mais do que nos Estados Unidos, por exemplo –resultando em limites nem sempre claros entre negros e brancos e, nas mentes de alguns brasileiros, inexistentes.

Na verdade, muitos eleitores disseram que a origem da Marina torna difícil para ela enfatizar sua identidade negra na campanha. Muitos destacam o seu sangue indígena e o fato de ter nascido na Amazônia.

“Eu vejo ela mais como índia do que negra”, disse Lisa Moraes, um professora negra de 43 anos, em uma praça de alimentação em Brasília. As amigas que a acompanhavam na mesa concordaram veementemente. “A experiência dela não é a mesma que a minha”, disse Francesca, sua irmã.

O cantor e compositor Gilberto Gil fez uma música para a campanha de Marina ressaltando a “pele morena e apelo popular” da candidata.

“Ninguém gosta de dizer, mas existe um enorme racismo no Brasil”, disse William Reis, de 29 anos, membro do AfroReggae, uma organização não-governamental que se destaca no Rio de Janeiro pela promoção da cultura negra nas favelas cariocas.

“Os jovens querem que nossos políticos falem sobre isso. É uma realidade. Por que não debatem isso?”

DEMOCRACIA RACIAL?

Estima-se que cerca de 5 milhões de africanos tenham sido trazidos ao Brasil entre 1525 e 1866, comparados aos aproximadamente 450 mil que foram levados aos Estados Unidos, de acordo com a Trans-Atlantic Slave Trade Database, uma base de dados que sobre o tráfico negreiro compilada por acadêmicos.

A segregação nunca foi aplicada no Brasil como foi nos Estados Unidos ou na África do Sul. Quando a América do Sul foi tomada pelo movimento em favor dos direitos civis nos anos 1960, líderes brasileiros proclamaram orgulhosamente que o país era uma “democracia racial”.

Ainda assim, muitos agora acreditam que tal retórica tinha como meta encobrir as verdadeiras divisões raciais na sociedade brasileira.

Nas favelas do país tem mais pessoas com ascendência africana do que na sociedade como um todo. Historiadores dizem que isso é um legado da escravidão, pois os descendentes dos escravos não tiveram acesso igualitário a escolas e empregos.

Mesmo hoje em festas infantis nos bairros ricos de São Paulo e Rio de Janeiro, com frequência os únicos negros são mulheres em uniforme branco, trabalhando como babá ou empregada doméstica.

Negros e pardos contabilizam cerca de 20 por cento dos estudantes universitários, cerca de cinco vezes mais do que em 1997, graças em parte às cotas raciais implementadas pelo PT, mas ainda assim desproporcional em relação ao tamanho desse grupo na população brasileira.

Barbosa, que se tornou o primeiro ministro negro do STF em 2003 e se aposentou este ano, fala com frequência sobre a necessidade de uma discussão mais ampla do que chama de “racismo velado, latente” do país. Várias vezes ele fez menção ao que considera uma enorme ausência de negros no governo brasileiro, especialmente entre diplomatas.

Enquanto continua um tabu em algumas áreas, a questão racial é tratada em outros lugares com uma abertura que chega muitas vezes a chocar os norte-americanos. Por exemplo, os quiosques de praia em Copacabana, no Rio, classificam os banhistas ao risco de exposição a raios ultravioleta em quatro categorias: “brancos e louros”, “moreno claro”, “moreno escuro” e “mulatos e negros”.

As questões raciais têm também cada vez mais se infiltrado na política.

Quando Dilma foi vaiada pelo público na partida de abertura da Copa do Mundo em São Paulo, em junho, ela culpou a “elite branca” da cidade pelas hostilidades. Aqueles que puderam arcar com os caros ingressos são também os que mais se opõem aos programas sociais do governo, disseram outras autoridades.

MUDANÇA DE TÁTICA

A campanha de Dilma tem buscado ressaltar o histórico de seu governo em questões raciais. Um assessor lembrou de uma propaganda recente de TV que mostra um estudante negro em uma sala de aula de uma universidade. O narrador diz que tais pessoas costumavam ser “invisíveis”.

Apesar disso, o crescimento econômico que possibilitou os ganhos sociais perdeu força no governo Dilma. Muitos economistas acreditam que as propostas de Marina, incluindo a simplificação do sistema tributário e o aumento do comércio, podem impulsionar o crescimento de forma a garantir o progresso continuado dos negros e dos pobres em geral.

Alguns observadores acreditam que Marina, uma vez que tenha assegurado um lugar no segundo turno, possa adotar novas táticas. Por exemplo, ao tonar mais claro como os negros brasileiros, em especial, se beneficiariam de suas políticas, ou falando mais sobre sua origem.

No entanto, segundo adversários, incluindo a ministra da Igualdade Racial do governo Dilma, Luiza Bairros, não vai ser fácil para Marina remodelar sua mensagem.

Questionada por que Marina não teria angariado apoio entre negros, Bairros sorriu, olhou por cima dos óculos e disse: “Você acredita mesmo que Obama teria 95 por cento (dos votos de negros) se ele fosse um republicano?”

“O que uma pessoa negra sabe no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo, é que a sua situação não vai melhorar a menos que se tenha... políticas que levem a mudanças”, acrescentou.

“A parte simbólica é importante”, disse ela. “Mas não é tudo.”

(Reportagem adicional de Paulo Prada)

((Tradução Redação São Paulo, +5511 56447719))

RBS

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