ANÁLISE-Caso Votorantim poderia, mas não servirá de lição a bancos

terça-feira, 26 de junho de 2012 20:01 BRT
 

Por Aluísio Alves

SÃO PAULO, 26 Jun (Reuters) - Em pouco mais de 12 horas, o Brasil conheceu dois efeitos dos excessos cometidos por bancos anos atrás, quando aceleraram a oferta de crédito em linha com a estratégia estatal de estimular o mercado interno para conter os efeitos da crise de 2008.

Em ambos os casos, financiamentos automotivos de má qualidade aparecem como ícone dessa realidade. Foram eles os responsáveis pela decisão dos sócios Banco do Brasil e Votorantim Finanças (VF) de aportar 2 bilhões de reais no Banco Votorantim, anunciado na noite da véspera.

Nesta manhã, o Banco Central citou os empréstimos ruins para compra de automóveis como principal razão da inadimplência do setor financeiro ter alcançado o recorde de 6 por cento em maio -a de pessoas físicas chegou a 8 por cento.

Isso num momento em que, agora para tentar amenizar os efeitos da crise europeia sobre uma vacilante economia doméstica, o governo retoma a receita de estimular o consumo com mais crédito e menos impostos, com BB e Caixa Econômica Federal deflagrando cortes agressivos de juros.

Especialistas enxergam esse cenário sob prismas distintos. Na avaliação mais otimista, a lição foi aprendida após dezenas de bilhões de reais em provisão adicional para perdas com calotes, que machucaram os lucros e a rentabilidade dos bancos, e o diagnóstico é de que a 'doença' não se espalhou.

"A decisão (de injetar capital no Votorantim) foi a melhor forma de lidar com as perdas recentes do banco", afirmou o analista de bancos do Barclays Fabio Zagatti, calculando que os recursos devem ampliar o índice de Basileia do banco em 3 pontos percentuais, depois de ter atingido 13 por cento no começo do ano, pouco acima do piso de 11 por cento exigido pelo BC.

Ainda que a medida fosse em grande parte esperada, o mercado recebeu a notícia com conservadorismo. A ação do BB na Bovespa caiu 2,36 por cento, o pior desempenho entre os grandes bancos, num dia em que o Ibovespa subiu 0,06 por cento.

E, embora necessária, foi uma decisão difícil. Para a Votorantim Finanças, braço financeiro do conglomerado da família Ermírio de Moraes, sua contribuição de 1 bilhão de reais no negócio equivale a cerca de 40 por cento do montante que o grupo auferiu no final de 2011 com a venda de sua fatia na Usiminas para o grupo ítalo-argentino Techint.   Continuação...