31 de Julho de 2012 / às 00:42 / 5 anos atrás

ANÁLISE-Venezuela se une a um Mercosul reduzido a fórum político

Por Guido Nejamkis

BUENOS AIRES, 30 Jul (Reuters) - A Venezuela entrará nesta semana com pompa em um Mercosul que ficou reduzido a um fórum político por suas disputas comerciais internas.

Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai criaram o Mercosul em 1995 para permitir que o comércio fluísse entre suas fronteiras e atraísse investimentos em escala semelhante à da União Europeia e o Tratado de Livre Comércio da América do Norte.

Quase duas décadas depois, o bloco está debilitado pelas brigas comerciais entre seus principais membros, que tentam blindar sua balança comercial da crise financeira global com medidas protecionistas.

Críticos garantem que o Mercosul se reduziu a um espaço político entre líderes de centro-esquerda de onde o Brasil constrói sua crescente influência regional e global, enquanto para os membros menores é útil como espaço de diálogo com seus vizinhos.

Segundo analistas, a recente decisão do bloco de permitir a entrada da Venezuela, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, segue a lógica de reforçar seu poder de influência.

A Argentina restringiu nos últimos meses a entrada de produtos brasileiros para proteger o superávit comercial com que financia a sua economia, isolada do mundo pelas políticas econômicas intervencionistas da presidente Cristina Kirchner.

O Brasil reagiu e freou o ingresso de produtos frescos.

A norte-americana McCain, por exemplo, teve de suspender no fim de junho centenas de funcionários em Buenos Aires porque não podia fornecer batata frita às lojas do McDonald’s e do Burger King no Brasil. A companhia se estabeleceu na Argentina em 1995 mirando o mercado brasileiro.

“As travas brasileiras provocaram à McCain mais custos do que as suspensões e a perda de vendas por 60 dias. Teve de abastecer o mercado brasileiro desde o Canadá e a Europa e alugar depósitos para armazenar parte da produção que não pôde vender”, disse um porta-voz da empresa em Buenos Aires.

Com o Uruguai não foi diferente. Suas três únicas montadoras de veículos ameaçaram fechar e, preventivamente, demitiram centenas de funcionários porque Argentina e Brasil limitaram a entrada de seus veículos.

A Argentina é o sócio mais prejudicado pela “guerra fria” comercial, já que seu acesso ao Brasil permitiu ao país atrair bilhões de dólares em investimentos de fabricantes que a usaram como trampolim para abastecer o país vizinho.

Assim desenvolveu uma forte indústria automotiva que a permitiu compensar, em parte, sua dependência das exportações agrícolas.

“Jamais a Argentina poderia estar entre os 20 primeiros fabricantes de veículos do mundo se não fosse parte do Mercosul”, disse o analista Marcelo Elizondo, da consultoria DNI Negocios Internacionales.

Agora, esse tipo de investimento é cada vez mais escasso, enquanto as empresas preferem se estabelecer diretamente no mercado brasileiro diante da incerteza sobre o futuro do bloco, com um comércio interno de 51 bilhões de dólares em 2011.

“Os investidores estrangeiros buscam investir em mercados nacionais em expansão. O Mercosul como mercado regional ampliado não entra mais em consideração”, disse José Botafogo Gonçalves, ex-representante do Brasil para o bloco e um dos fundadores.

Em 2011, o Brasil recebeu 66,6 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros diretos, ante 7,2 bilhões de dólares da Argentina. Na década de 1990, para cada quatro dólares que entravam no Brasil, a Argentina recebia um dólar, segundo o Cepal.

Desde sua criação, o Mercosul foi cenário de várias disputas comerciais. Mas as estatísticas mostram que, pela primeira vez, as brigas estão contraindo seu comércio interno.

Em junho, o intercâmbio entre Argentina e Brasil caiu 32 por cento, o que fez com que a terceira economia latino-americana baixasse um nível no ranking das principais fornecedores de seu vizinho, atrás de Estados Unidos, China e Alemanha.

“A queda se explica... pelas maiores restrições à importação”, disse a consultoria Abeceb em relatório.

TRAVAS TARIFÁRIAS

Nem a Tarifa Externa Comum, a coluna vertebral da união aduaneira, parece se manter em pé. Em seu afã de proteger a indústria local a todo o custo, Argentina e Brasil concordaram recentemente em abandonar a tarifa comum para alguns produtos.

Isso significa que os dois países poderão aplicar diferentes tarifas para importação de um mesmo bem.

As disputas comerciais se somaram às divergências políticas pela incorporação da Venezuela como membro, em uma cúpula na Argentina no fim de junho.

A medida desencadeou críticas nas fileiras governistas e oposicionistas no Uruguai, apesar de o presidente uruguaio, José Mujica, tê-la respaldado. Seu vice-presidente, Danilo Astori, disse que a entrada da Venezuela abriu a maior “ferida institucional” na história do bloco.

A adesão foi possível porque o Mercosul, na mesma cúpula, decidiu suspender o Paraguai por causa do impeachment do presidente Fernando Lugo. O Congresso paraguaio era o único do bloco que havia rejeitado ratificar a entrada da Venezuela.

“Estamos vendo um desmantelamento do processo integrador. O mercado comum, a tarifa externa comum, a união aduaneira, o livre comércio ... o tempo os desmantelou”, disse o ex-chanceler e ex-ministro da Indústria do Uruguai Sérgio Abreu, atual senador da oposição.

Os empresários venezuelanos também não estão satisfeitos com o ingresso de seu país no Mercosul, o que ampliará as tensões no bloco. O presidente da Federação Nacional dos Pecuaristas da Venezuela, Manuel Heredia, foi direto ao ponto:

“Do ponto de vista manufatureiro e agropecuário, tanto vegetal como animal, não podemos competir.”

Reportagem adicional de Eyanir Chinea, em Caracas, e de Hugo Bachega, em Brasília

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