October 26, 2012 / 1:17 PM / 5 years ago

Inadimplência no Brasil não cede e crédito desacelera--BC

6 Min, DE LEITURA

Por Tiago Pariz

BRASÍLIA, 26 Out (Reuters) - A cautela dos bancos na concessão de crédito e os patamares altos de endividamento das famílias estão segurando o crescimento do mercado de crédito brasileiro, em meio à inadimplência ainda elevada.

O Banco Central mostrou nesta sexta-feira que a taxa de atrasos nos pagamentos acima de 90 dias permaneceu no elevado patamar de 5,9 por cento no mês passado, pelo terceiro mês consecutivo. Para pessoas físicas, ela continuou em 7,9 por cento e, para empresas, apresentou leve recuo de 0,1 ponto sobre agosto, para 4 por cento.

"Os bancos estão mais cautelosos por conta da inadimplência. As famílias estão mais endividadas e está cada vez mais difícil pegar financiamento com prazos mais longos", afirmou o economista da LCA Wermeson França.

O principal vilão tem sido o crédito automotivo, que acumula os maiores calotes. No mês passado, a taxa desse segmento subiu 0,1 ponto percentual, para 6 por cento, próximo do recorde histórico de 6,1 por cento atingido em maio deste ano.

O chefe do departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, admitiu que a inadimplência tem surpreendido, mas voltou a defender que ela vai ceder até o final do ano. "Tínhamos a expectativa que ela iria cair agora em setembro. Pode ser que a greve tenha influenciado isso", afirmou ele, referindo-se à paralização dos bancários no mês passado.

Diante do cenário ainda de calotes elevados, as taxas médias de juros para pessoas físicas voltaram a subir depois de seis meses consecutivos de queda, passando de 35,6 para 35,8 por cento ao ano em setembro. Em outubro, o movimento continua: até o dia 17, ainda segundo o BC, ela já estava em 36,5 por cento.

No geral, os juros médios subiam para 30,1 por cento em outubro, também até o dia 17, apesar de terem recuado 0,2 ponto percentual, para a mínima histórica de 29,9 por cento em setembro, sobre o mês anterior.

Para França, da LCA, os juros tendem a se estabilizar nestes patamares porque já houve quedas expressivas antes, além de as concessões não estarem sendo mais expressivas. Segundo o BC, as taxas médias recuaram, entre março e setembro, 8,2 pontos percentuais.

"As taxas de juros devem se manter neste atual patamar, que é bastante baixo", afirmou o economista, acrescentando que a margem de manobra do governo para forçar mais quedas nos juros se estreitou.

O governo tem travado uma batalha com o sistema financeiro privado para forçar a queda nas taxas de juros cobradas dos clientes e, para isso, tem usado os bancos federais Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. Além disso, o BC cortou a Selic para a mínima histórica de 7,25 por cento.

Esse movimento abalou a rentabilidade das principais instituições financeiras privadas do país, que têm se mostrado cautelosas frente ao mercado de crédito. O lucro do Itaú Unibanco, por exemplo, encolheu mais de 10 por cento no terceiro trimestre na comparação anual, com aumento das provisões para calotes e queda da margem financeira.

crédito Moderado

O cenário de alta inadimplência acaba segurando o crescimento do estoque total de crédito. Em setembro, houve alta de 1,1 por cento sobre agosto, chegando a 51,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), ou 2,237 trilhões de reais.

Na comparação anual, a expansão ficou em 15,9 por cento, o menor desde dezembro de 2009, quando foi de 15,2 por cento. O BC projeta que o mercado de crédito vai crescer 16 por cento neste ano, sustentado sobretudo pelos bancos públicos.

Em setembro, essas instituições registraram aumento de 2 por cento em seus estoques de crédito, mantendo o ritmo do mês anterior. Os bancos privados nacionais, por sua vez, desaceleraram, com alta de apenas 0,2 por cento no mês passado; em agosto, a expansão havia sido de 0,9 por cento.

"Ainda que estabilizada, a inadimplência elevada ainda fará com que os bancos privados sigam criteriosos nas novas concessões. Portanto, a tendência de maior participação das instituições financeiras do setor público também deve prosseguir", escreveu a equipe econômica do banco Votorantim, por meio de nota.

A demanda por crédito tem se reduzido também por causa do endividamento das famílias ainda elevado e do maior rigor dos bancos para se protegerem contra os calotes. Em agosto, último dado disponibilizado pelo BC, as famílias tinham 22,36 por cento da renda comprometida com o pagamento de dívida, patamar considerado elevado.

Segundo Maciel, do BC, a greve bancária no mês passado explica também a desaceleração no mercado e a alta nos juros, argumentando que a paralisação favorece a tomada de créditos mais caros, como o cheque especial e o cartão de crédito.

"Essas paralisações favorecem o crédito imediato, prontamente disponíveis. São linhas com taxas mais altas", afirmou Maciel, ressaltando que, sem a greve, poderia ter havido queda no juros e nos calotes no mês passado.

O BC informou também que o spread bancário total --diferença entre o custo de captação do banco e a taxa efetivamente cobrada do consumidor final-- atingiu 22,3 pontos percentuais em setembro, contra 22,5 pontos no mês anterior.

Em outubro, até o dia 17, ele já voltou a crescer, chegando a 22,7 pontos percentuais.

Para pessoa física, houve alta de 0,2 ponto percentual no mês passado, a 27,9 pontos. Para empresas, a taxa recuou 0,4 ponto, a 15,3 pontos.

Com reportagem adicional de Alonso Soto

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