4 de Abril de 2013 / às 21:14 / 4 anos atrás

ANÁLISE-Reeleição de Dilma pode não ser a barbada que parece

Por Brian Winter

SÃO PAULO, 4 Abr (Reuters) - Ela está entre os mais populares presidentes do mundo, com um índice de aprovação --79 por cento, e subindo-- que causa inveja em seus colegas de países mais ricos, às voltas com crises da dívida e impasses políticos.

A taxa de desemprego nunca foi tão baixa no país, e o otimismo empreendedor é comparável ao dos EUA no pós-Segunda Guerra Mundial. Com esse cenário, Dilma tem a chance de exibir seu progresso ao receber a Copa do Mundo de 2014.

E, no entanto, é inteiramente plausível que Dilma Rousseff não consiga se reeleger como presidente do Brasil em outubro de 2014.

A presidente, de 65 anos, continua sendo a clara favorita, mas a ameaça da alta inflacionária e do desemprego, um trio de adversários competitivos na disputa e a possibilidade de um constrangedor fracasso logístico na Copa fazem com que a candidatura de Dilma não seja a barbada que alguns observadores apontam.

“Provavelmente vai ser a eleição mais competitiva no Brasil em uma década”, disse João Augusto de Castro Neves, analista da consultoria Eurasia Group. “Se você for ver, a maioria dos ingredientes para uma disputa acirrada está aí.”

O principal ingrediente é a economia.

Sob certos aspectos, esse é o maior trunfo de Dilma. O desemprego em fevereiro ficou em 5,6 por cento, o menor já registrado para esse mês. Os salários reais continuam crescendo, como vêm ocorrendo na maior parte da última década, período em que a economia brasileira registrou uma expansão histórica, tirando da pobreza cerca de 35 milhões de pessoas, uma Califórnia inteira.

O sucesso passado e presente explica por que a aprovação de Dilma voltou a subir na última pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), no mês passado, quando o índice chegou a 79 por cento. Para 63 por cento dos entrevistados, o governo dela é ótimo ou bom.

Se esses números se mantiverem, Dilma será praticamente imbatível. Castro Neves citou um estudo do instituto Ipsos, que examinou mais de 200 eleições mundo afora nas últimas duas décadas, e concluiu que líderes com aprovação superior a 60 por cento têm 90 por cento de chances de serem reeleitos.

No entanto, não muito abaixo da superfície, há claros problemas econômicos que podem vir à tona e prejudicar Dilma, corroendo essa invejável aprovação quando a campanha eleitoral ganhar fôlego.

QUANTO DURA?

O vilão mais provável, embora não o mais perigoso, é a inflação.

A inflação acumulada em 12 meses até meados de março chegou a 6,43 por cento e deve subir ainda mais nos próximos meses. O Banco Central disse na semana passada que vê 25 por cento de chances de que a inflação feche o ano acima de 6,5 por cento, o teto da meta do governo.

O país é sensível a aumentos de preços, principalmente por causa dos horrores do passado. Há apenas duas décadas, a hiperinflação atingia mais de 2.500 por cento ao ano, e as pessoas consideram que o sucesso recente do Brasil só foi possível porque esse problema foi controlado.

A maioria dos eleitores ainda não se enfureceu com os aumentos de preços, porque os salários têm crescido ainda mais - -por uma margem média em torno de 3 por cento no ano passado. Na pesquisa da CNI, 48 por cento disseram aprovar o comportamento de Dilma no combate à inflação, enquanto 47 por cento o reprovaram, resultado que foi uma surpresa positiva para alguns no Palácio do Planalto.

Será que isso vai durar? Citando um membro da equipe econômica de Dilma: “Quem lhe disser que sabe isso está mentindo.”

Isso porque a economia brasileira está se comportando estranhamente, e não há manual que mostre para onde ela se encaminha. O sólido crescimento da renda se estabilizou, porque o PIB cresceu apenas 2,7 por cento em 2011, e 0,9 por cento em 2012. Projeções de um crescimento de 3 por cento neste ano começam a parecer otimistas demais.

A popularidade de Dilma mostra que os eleitores brasileiros não ligam a mínima para o PIB. Mas os líderes empresariais ligam, e são eles que oferecem a maior parte dos empregos. E, com efeito, vários indicadores do sentimento empresarial parecem abalados.

A Bolsa de São Paulo teve perdas de 7,55 por cento entre janeiro e março, pior primeiro trimestre em 18 anos, num momento em que os mercados nos EUA estão disparando. A produção industrial caiu 2,5 por cento em fevereiro, seu pior desempenho desde o auge da crise financeira no final de 2008, tolhendo as esperanças de que os numerosos pacotes de estímulo econômico do governo Dilma tenham ajudado a indústria a se recuperar.

O consumo há anos salva a economia --graças ao crédito mais barato e amplamente disponível. Mas a inflação alta provavelmente levará o Banco Central a retomar a trajetória de alta dos juros a partir de maio ou junho.

Então, a questão se resume ao seguinte: será que as empresas brasileiras vão continuar gerando mais empregos e pagando melhores salários se a economia entrar num terceiro ano consecutivo de crescimento pífio, sem uma recuperação à vista, e ao mesmo tempo o crédito se tornar mais caro e o consumo começar a se desacelerar?

A resposta pode muito bem ser “sim”. Muitas empresas continuam apostando que o futuro brasileiro, em longo prazo, permanecerá brilhante.

Mas, se a resposta for “não”, a inflação se tornará uma questão política mais importante, e o maior risco à reeleição de Dilma pode emergir: o desemprego. E aí a eleição de 2014 pode se tornar de fato interessante.

DE OLHO NA COPA

Outra verdade inconteste sobre Dilma é que, embora ela seja amplamente respeitada e até admirada, ela não é amada --pelo menos não no mesmo nível que seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, que governou o Brasil de 2003 a 2010.

Tecnocrata, só foi disputar sua primeira eleição em 2010 e ainda parece incomodada às vezes de falar a multidões. Mas Dilma construiu sua imagem em torno da ideia de que seria uma sensata guardiã da economia.

O lado negativo disso é que, se a economia desacelerar mais, não há muito mais para sustentar sua popularidade.

Na pesquisa CNI, ela se saiu melhor nos quesitos combate à pobreza, fome e desemprego. Mas foi reprovada pela maioria na condução da saúde pública (67 por cento), segurança (66 por cento) e educação (50 por cento), questões que estão se tornando prioridades mais relevantes à medida que mais gente entra para a classe média.

Da mesma forma, a ênfase na competência administrativa como principal qualidade de Dilma a deixa especialmente vulnerável a uma situação de caos na Copa, que acontecerá apenas três meses antes da eleição presidencial.

A Fifa já manifestou preocupação de que os estádios não fiquem prontos a tempo, e o Brasil sofre com terríveis gargalos crônicos em aeroportos, rodovias e redes de transportes públicos. Um grande colapso logístico poderia ser usado pela oposição para desmontar o que é visto como o maior trunfo da presidente.

OS DESAFIANTES

Quanto a prováveis adversários competitivos na eleição, houve um aumento em relação a 2010, quando eles eram apenas dois.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), um aliado histórico que pode tirar votos de Dilma no Nordeste, uma região que é um forte reduto dela, são os que tem melhores chances.

Aécio e Campos são figuras de boa presença televisiva, que podem se apresentar como candidatos capazes de manter programas sociais populares, mas também mais favoráveis à iniciativa privada do que Dilma. Ambos poderiam atrair doações de empresas que estejam interessadas em mudança caso a economia siga estagnada no ano que vem.

Uma terceira candidatura, da ex-ministra de Lula e ambientalista Marina Silva, parece que terá dificuldades em ganhar impulso popular ou financeiro, mas pode ser capaz de tirar votos suficientes de Dilma a ponto de provocar um desconfortável segundo turno, como já fez em 2010.

Pesquisa Datafolha publicada em 22 de março mostrou Dilma destruindo seus possíveis rivais, com 58 por cento das intenções de voto, contra 16 por cento de Marina, 10 por cento de Aécio e 6 por cento de Campos.

Mas a própria Dilma é prova de que as primeiras pesquisas não contam muito no Brasil, já que muita gente só dá atenção à política quando chega a época da eleição.

Quando faltavam 18 meses para a última eleição presidencial, Dilma estava 30 pontos percentuais atrás do seu rival, José Serra (PSDB) --provando, outra vez, que na disputa política tudo é possível.

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