PERFIL-Obstinado, Campos é "trator político", mas administrador mais aberto

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013 14:08 BRST
 

Por Jeferson Ribeiro

RECIFE, 19 Dez (Reuters) - O aprendizado no palanque começou cedo, aos 21 anos, quando participou ativamente da eleição do avô, Miguel Arraes, um dos ícones da esquerda na resistência à ditadura militar, para o governo de Pernambuco em 1986. Depois disso, recém-formado em economia, Eduardo Campos foi chefe de gabinete de Arraes, partindo daí para construir sua própria carreira política.

Mas se o ponto de partida foi o avô, quem conheceu um e conhece o outro vê fortes distinções. "Ele gerencialmente é melhor que o avô. Politicamente é mais autoritário que o avô", resumiu um político pernambucano.

Em um campo de futebol, nas palavras de um assessor próximo, Arraes seria um meia cerebral, capaz de lançamentos precisos e com ampla visão de jogo. Campos traz mais um perfil para o ataque, jogaria com a camisa de centroavante, mas não daqueles trombadores.

As diferenças entre eles também são atribuídas ao ambiente político em que os dois foram forjados. Arraes enfrentou a ditadura e aprendeu a fazer política nas dificuldades do sertão. Campos, de 48 anos, desenvolveu seu traquejo político na democracia e com mais condições do que o avô.

Mas a obstinação herdada é, provavelmente, o traço mais marcante desse governador que quer chegar à Presidência da República.

Depois de ocupar cargos na administração do avô, de ser eleito deputado estadual e federal, ser o ministro mais jovem do governo Lula e se eleger governador duas vezes, Campos iniciou 2013 embalado pelo desempenho notável do PSB nas eleições municipais do ano anterior, dizendo a Dilma que não negociaria o apoio do partido à sua reeleição antes de 2014.

Em janeiro, ainda se considerava a possibilidade de que o PT mudasse a aliança com o PMDB para abrigar o PSB como vice de Dilma na disputa pela reeleição. Era mais uma esperança do que uma possibilidade para um partido que historicamente quase sempre esteve aliado aos petistas.

Meses depois, já convencido disso e percebendo os movimentos dos demais aliados do governo, o também presidente do PSB deu início ao seu próprio projeto de poder, que chegou ao ápice entre setembro e outubro, quando o partido deixa seus cargos no governo federal e filia, numa reviravolta eleitoral impressionante, a ex-senadora Marina Silva para disputar a Presidência ao lado do pernambucano.   Continuação...

 
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, discursa durante um encontro no qual a ex-senadora Marina Silva anunciou sua decisão de se aliar ao PSB, em Brasília. O aprendizado no palanque começou cedo, aos 21 anos, quando participou ativamente da eleição do avô, Miguel Arraes, um dos ícones da esquerda na resistência à ditadura militar, para o governo de Pernambuco em 1986. Depois disso, recém-formado em economia, Eduardo Campos foi chefe de gabinete de Arraes, partindo daí para construir sua própria carreira política. 05/10/2013 REUTERS/Ueslei Marcelino