14 de Fevereiro de 2014 / às 18:43 / 4 anos atrás

Isabel Allende debocha do gênero policial em ‘O Jogo de Ripper'

Por Billy Cheung

NOVA YORK, 14 Fev (Reuters) - Famosa por adotar o realismo mágico em romances como “A Casa dos Espíritos”, a autora chilena-norte-americana Isabel Allende faz experiências com a literatura policial em seu mais recente trabalho, “O Jogo de Ripper”.

O livro, assim intitulado em referência a um jogo de verdade online, leva os leitores para a São Francisco contemporânea onde ocorre uma série de assassinatos que seguem vagamente uma previsão astrológica.

Um grupo de jogadores de Ripper começam a agarrar-se às pistas para revelar a identidade do assassino.

A Reuters falou com Isabel sobre sua motivação, o enredo e seu processo de escrita.

P: O que a levou a decidir a escrever uma novela policial?

R: Eu queria escrever um livro com o meu marido, William Gordon, que escreveu vários policiais que foram traduzidos. Mas logo percebemos que isso era impossível e acabamos brigando como cães. Ele escreve em inglês com um período de concentração de 11 minutos. Eu escrevo em espanhol por 11 horas. Eu acabaria fazendo todo o trabalho e ele levaria metade do crédito - não seria um bom negócio para mim!

Eu começo meus livros em 8 de janeiro. Mas por volta de 7 de janeiro nós tínhamos brigado tanto que ele foi para a sala dele trabalhar em sua sexta novela policial, enquanto eu fui para a minha escrever a minha primeira.

Juntos não poderíamos escrever nenhuma outra coisa porque ele somente escreve novelas policiais.

P: Como você se preparou para o processo de escrita deste livro, diferente de algumas de suas outras obras?

R: Eu me preparei com ironia porque não sou uma fã de novelas policiais. Li algumas obras policiais para me preparar para este livro. Os mais interessantes recentemente foram escritos por escandinavos, especialmente Stieg Larsson e Jo Nesbo. Achei esses livros realmente repulsivos, violentos e sombrios. Eu geralmente não gosto de fórmulas em livros. Você pode ficar surpreso com a identidade do assassino, mas uma fórmula de mistério nunca o desaponta. É como um romance onde você sabe que há cenas sensuais e um final feliz.

Novelas policiais e romances são fantasias, e seus personagens tendem a ser caricaturas. Para uma autora como eu, que mergulha tanto no personagem, relacionamentos e pesquisa, precisei escrever este livro no meu estilo e debochar do gênero.

P: Em que momento você soube que o enredo funcionaria?

R: O enredo surgiu logo, quando eu vi minha neta jogando Ripper, que é de fato um jogo de interpretação dos personagens em que os jogadores tentam capturar Jack (the Ripper) o Estripador em Londres em 1888.

Vamos então colocar toda esta ação em São Francisco em 2012 e tentar fazê-la funcionar. No começo, eu estava apenas divagando.

Os assassinos no livro apareceram para mim individualmente. Eu não planejei a série completa de crimes desde o início. Ela simplesmente se desenvolveu desse jeito.

No entanto, a gente nunca termina uma novela - a gente simplesmente desiste. Há um momento em que não faz sentido eliminar mais ninguém.

Eu tinha ouvido que escritores de novelas policiais planejam cada palavra com tudo mapeado antes de começarem, mas esse não foi o caso comigo.

P: Quais os personagens você mais gostou de desenvolver?

R: O vilão era o mais interessante. Mas o personagem que eu mais pesquisei foi o membro do Seal (força especial da Marinha dos EUA) porque eu nada sabia sobre os militares. Eu encontrei um Seal que estava disposto a conversar comigo. Ele acabou de se aposentar e por isso podia falar porque eles são muito reservados. Ele era vagamente aparentado com uma pessoa que trabalha na minha fundação.

O personagem que eu mais amei é o avô porque eu adoro seu relacionamento com sua neta, Amanda. O personagem dela foi de alguma maneira inspirado em uma das minhas netas adolescentes, Andrea, quando ela estava com 15 anos.

P: Considerando o quanto “O Jogo de Ripper” é diferente de suas outras obras, você acabou gostando de escrever um livro policial?

R: Eu amei totalmente! Eu estive em uma conferência de escritores de novelas policiais, onde aprendi muita coisa e recebi ajuda para a pesquisa. Adorei o processo e a diversão de fazer isso, não é nada transcendental ou sério. É só diversão para mim e o leitor.

Mas não acho que voltarei a esse gênero num futuro próximo.

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