ENTREVISTA-Brasil precisa mudar cultura política e isso demanda tempo e bons exemplos, diz FHC

sexta-feira, 5 de maio de 2017 14:28 BRT
 

Por Alexandre Caverni e Daniel Flynn

SÃO PAULO (Reuters) - O sistema político brasileiro vai mal, mostrou a Lava Jato, e precisa ser reformado, mas, mais importante que isso, o que precisa mudar mesmo é a cultura política do país e isso não acontece de uma hora para outra, é um processo que demanda "tempo e exemplaridade", avalia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"Eu acho que a Lava Jato tem um papel muito importante no Brasil porque destampou a panela, precisava destampar a panela, mas eu não acho que resolva as coisas de imediato, isso é um processo", disse Fernando Henrique em entrevista à Reuters em seu espaçoso escritório na fundação que leva seu nome no centro de São Paulo.

"Em política essa é a dificuldade, as pessoas pensam que é um ato e não é, é um processo. E aqui tem uma coisa mais complicada de mudar que é a chamada cultura política, que não são as leis, as instituições. São as práticas, é a questão do favor, da permissividade, isso é da cultura brasileira, não é político não", continuou o ex-presidente, citado em delação da Lava Jato.

"Como você muda uma cultura? Com tempo e com exemplaridade, não tem jeito. Práticas precisam ser repetidas, repetidas para ver se pega, se contagia os outros. Como você muda a cultura? Por lei? Não tem como."

Ainda que defenda uma reforma profunda no sistema político, Fernando Henrique sabe que não há tempo para fazer isso valendo já para as eleições de 2018, uma vez que, pela legislação, para serem válidas no pleito, alterações nas regras precisam ser aprovadas pelo Congresso um ano antes.

"Nós estamos em maio, o que passa? O que já está lá (no Congresso)", disse, citando financiamento público de campanha, além da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que proíbe as coligações em eleições proporcionais e cria a chamada cláusula de barreira --que estabelece requisitos para que os partidos tenham acesso aos recursos do fundo partidário e ao tempo gratuito de rádio e TV, entre outros pontos.

Para o ex-presidente, é preciso reduzir a fragmentação dos partidos. Hoje 27 partidos têm parlamentares no Congresso, de um total de 35 registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com outros 57 na fila, em formação.

"Quem conseguir ter o certificado de que é partido tem acesso ao fundo partidário, ganha dinheiro", lembrou.   Continuação...

 
Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dá entrevista à Reuters no escritório de sua fundação, em São Paulo
04/05/2017
REUTERS/Nacho Doce