ANÁLISE-Fundo soberano brasileiro desfigura modelo mundial

sexta-feira, 9 de maio de 2008 16:54 BRT
 

Por Isabel Versiani

BRASÍLIA (Reuters) - O fundo soberano em elaboração pelo governo brasileiro promete ser tão diferente dos demais instrumentos desse tipo criados ao redor do mundo que não mereceria sequer essa denominação, afirmam analistas.

"A proposta não tem pé, não tem cabeça e não tem sentido", afirmou Alexandre Schwartsman, economista-chefe para América Latina do ABN Amro e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.

Segundo ele, em face do o que foi adiantado até o momento pelo Ministério da Fazenda sobre as características do novo fundo, ele "certamente" não será um fundo soberano como o mundo já conhece.

Instrumentos de investimento, os fundos soberanos foram encampados por países que têm fontes de receitas constantes em moeda estrangeira, por serem grandes exportadores de commodities energéticas, como é o caso da Noruega; ou que têm superávits fiscais muito elevados, como a Cingapura.

O objetivo, em geral, é reservar recursos para um futuro em que não se possa mais contar com a poupança excedente.

O Brasil, argumentam os economistas, não tem superávits nominais e, apesar do fortalecimento das contas externas, também não é um grande importador de moeda estrangeira.

Ainda assim, o ministro Guido Mantega anunciou esta semana que pretende criar até junho um fundo soberano constituído por até 20 bilhões de dólares. Os recursos seriam provenientes, basicamente, da aquisição de dólares pelo Tesouro Nacional em mercado e destinados, em um primeiro momento, principalmente a financiar o BNDES, por meio da compra de debêntures do banco, para que ele possa oferecer crédito a empresas brasileiras no exterior. A operação também teria o objetivo de enxugar dólares no mercado em um momento em que o governo se preocupa com a valorização excessiva do real.

"O que o governo quer fazer para ajudar as empresas lá fora não precisa de fundo soberano", afirma o economista Paulo Rabello de Castro, da RC Consultores.  Continuação...