PERFIL-Na iminência de condenação, Dirceu falou em se reiventar
Por Ana Flor
BRASÍLIA, 9 Out (Reuters) - "Eu vou ter que me reinventar", escreveu José Dirceu a um amigo por email, após ouvir o relator da ação penal do chamado mensalão em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, pedir sua condenação por corrupção e chamá-lo de "mandante" de um esquema de compra de apoio político.
Outros cinco ministros confirmaram o voto do relator, selando a condenação de Dirceu, principal réu do caso.
No email, ao qual a Reuters teve acesso, o ex-ministro-Chefe da Casa Civil disse que uma condenação pelo STF, sobre a qual tinha poucas dúvidas, era "mais um desafio" para um ex-guerrilheiro que ajudou a construir "o maior partido do Brasil" --ex-presidente do PT, foi ele o artífice das alianças que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2002.
Sete anos depois de deixar o Planalto, Dirceu mantém influência no governo, no partido e a adoração de militantes --sentimento que parece só ter crescido após a crise do chamado mensalão, que o tirou do poder.
Afastado oficialmente dos palcos da política desde 2005, quando deixou a Casa Civil e teve seu mandato de deputado cassado em meio à crise do chamado mensalão, agora em julgamento no Supremo Tribunal Federal, Dirceu nunca se distanciou da articulação política, nem deixou de exercer seu papel de liderança no PT.
As razões da manutenção do seu poder e influência enquanto outros nomes históricos do partido se afastaram, está, segundo pessoas próximas e até mesmo desafetos, na obstinação e disciplina do ex-guerrilheiro, que chegou a fazer uma cirurgia plástica no exílio em Cuba para voltar ao país clandestinamente durante a ditadura militar (1964-1985).
"O trabalho, a competência, a liderança de Dirceu foram a base da aliança que elegeu Lula. No governo, sua capacidade de trabalho e visão política fizeram dele um 'primeiro-ministro de fato'... Era o candidato natural à sucessão de LulPERFRILa, daí esta denúncia contra ele", afirma o amigo e advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para quem nada se apurou contra Dirceu ao longo do processo.
Se tem amigos fiéis e admiradores no PT e na esquerda, Dirceu também acumulou ao longo dos anos inimigos no partido e entre siglas aliadas. Um deles, o ex-deputado petebista Roberto Jefferson, delatou o mensalão e foi o responsável por colocar Dirceu no centro das denúncias, que começaram a ser julgadas em agosto em um julgamento sem previsão de acabar. Continuação...

