22 de Dezembro de 2012 / às 14:12 / 5 anos atrás

BRASIL 13/14-Agronegócio deve recuperar peso no PIB apesar de desafios históricos

Trabalhadores colhem frutos de guaraná em uma fazenda em Maués, 256 quilômetros a leste de Manaus. 1/12/2012Bruno Kelly

(A Reuters publica uma série de matérias especiais sobre as perspectivas para o Brasil em 2013 e 2014)

Por Fabíola Gomes e Gustavo Bonato

SÃO PAULO, 22 Dez (Reuters) - O agronegócio do país poderá voltar a ter maior importância na economia brasileira no próximo ano, após o fraco desempenho de 2012 resultante da escalada de custos por quebras de safras em países produtores chaves, incluindo o próprio Brasil.

Mas problemas estruturais continuarão limitando no médio prazo um crescimento maior do setor, que responde por quase um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Em 2013, nas projeções mais otimistas de especialistas, o PIB do agribusiness poderá avançar 4 por cento.

Os mesmos preços altos da soja e milho que minaram os resultados da indústria de alimentos neste ano, justamente em um período de crise internacional, impulsionaram produtores a plantar uma safra recorde de grãos no Brasil em 2012/13. Se confirmada, a produção ajudará na recuperação do PIB do campo e do país, dando algum fôlego para a presidente Dilma Rousseff atravessar o penúltimo ano de seu mandato.

A produção recorde de grãos e oleaginosas, estimada em cerca de 180 milhões de toneladas a depender das condições climáticas favoráveis nos próximos meses, também poderá atenuar preocupações inflacionárias.

"O agronegócio deve seguir desempenhando papel estratégico para a evolução da economia brasileira. Nos próximos anos, em que o crescimento da economia mundial e nacional será baixo, aumenta a importância do desempenho do agronegócio", disse o professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Geraldo Barros.

No entanto, o crescimento previsto para o agronegócio, que nas contas do Cepea respondeu por 27 por cento do PIB brasileiro nos últimos dez anos, não vai muito além do que o mercado espera para a economia nacional como um todo.

"Para 2013, nós avaliamos que deverá ter um crescimento entre 3,5 e 4 por cento, considerando que a agroindústria vem tendo um fraco desempenho... que acabou pressionando o crescimento do agronegócio em 2012", disse a superintendente técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rosemeire Cristina dos Santos.

Esse avanço esperado para o PIB do agribusiness seria somente um pouco maior do que o previsto para a economia nacional, de 3,4 por cento para 2013, segundo a mais recente pesquisa Focus do Banco Central.

POR QUE NÃO CRESCE MAIS?

O cenário global ainda aponta para uma crescente demanda por produtos agropecuários, face à expansão do mundo emergente e consequentes mudanças de hábitos alimentares, apesar da crise na União Europeia e do baixo crescimento em outros países desenvolvidos.

Mas especialistas avaliam que o Brasil precisa resolver problemas estruturais, que resultam em custos crescentes para o setor, e trabalhar melhor na diversificação de mercados globais.

"Temos um custo logístico e de mão de obra crescente e muitas assimetrias na área de tributação. Isso tem tirado o potencial de crescimento da agroindústria brasileira. Está mais caro produzir os alimentos processados", disse a especialista da CNA, ressaltando que a alta dos custos com grãos em 2012 salientou problemas estruturais históricos.

Por outro lado, se a safra recorde se confirmar, a expectativa da CNA é de uma redução de custos para a agroindústria, o que melhoraria a rentabilidade e faria a agroindústria recuperar um pouco da competitividade, tendo impactos positivos no PIB do setor.

"Ainda não será um ano trivial para proteínas animais. Mas será melhor do que neste ano, porque o ajuste maior já foi feito neste ano", disse o coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.

ACORDOS BILATERAIS

Para o ex-ministro, o país precisa investir pesado em acordos bilaterais para expandir o seu comércio, uma vez que a Rodada de Doha de negociações multilaterais parece estar enterrada.

"O Brasil tem que procurar neste momento trabalhar em todas as linhas possíveis. Tem que ir ao ataque. O que é mais promissor neste momento são os países emergentes. Mas sem tirar de foco Japão, União Europeia, Estados Unidos e Rússia, que são compradores importantes", ressaltou Rodrigues.

Segundo ele, o país precisaria realizar, a exemplo de Chile, Colômbia e México, uma ofensiva para conseguir acordos bilaterais de comércio, "uma lição de casa que não fizemos ainda".

Com isso, o Brasil poderia reduzir a dependência de alguns destinos, como China e União Europeia, que respondem por quase metade dos embarques de produtos do agronegócio brasileiro e que enfrentam, respectivamente, desaceleração do crescimento e estagnação.

"O desafio do Brasil é desenhar uma estratégia para o agronegócio... considerando a razoável hipótese de que a China não terá mais um crescimento tão vigoroso", disse o sócio-diretor da RC Consultores, Fábio Silveira.

"Este ano, quando a China deu uma suspirada, todo mundo percebeu", completou o professor USP Decio Zylbersztajn, especializado em agronegócio.

ESTRATÉGIA DESCOORDENADA

Especialistas acreditam que o Brasil precisa traçar uma estratégia que envolva todas as pontas da cadeia, da fazenda à indústria, passando pelo governo federal e pelas entidades que representam o setor, com o objetivo de ampliar os seus mercados, além de buscar formas de reduzir custos.

No perseguição a novos mercados, por exemplo, a grande dificuldade é alinhar toda a cadeia produtiva em busca dos parâmetros técnicos e de sanidade exigidos pelos clientes internacionais.

Em alguns casos isso poderia ajudar o país a vender produtos de maior valor agregado, como carnes, uma vez que o Brasil tem reconhecida competitividade no seu setor primário, apesar dos históricos problemas estruturais.

"Tem um desafio muito grande de colocar produtos de mais alto valor na China... porque eles estão comprando produtos que remuneram menos", disse o diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), André Nassar, lembrando como foi difícil ao país habilitar as primeiras unidades a exportar carnes à China.

VELHOS E NOVOS PROBLEMAS

Em meio ao cenário desafiador no mercado internacional, o país ainda precisa lidar com problemas recorrentes do chamado "custo Brasil", que minam a sua competitividade, tais como logística deficitária para o escoamento da safra.

"Em 2013, terá uma pressão muito grande. Cresce a safra, mais tem pouca infraestrutura para o escoamento. E tem ainda a questão da mão de obra... o novo desafio da questão dos motoristas", observou o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Carlos Corrêa Carvalho, referindo-se à nova lei que reduz o número de horas que os caminhoneiros podem ficar ao volante.

Até mesmo as grandes agroindústrias sofrem com a escassez de trabalhadores qualificados. "Sentimos isso na pele no interior. Em Mato Grosso e no Nordeste temos tido dificuldade para preencher vagas", disse recentemente o vice-presidente de Finanças da Brasil Foods, Leopoldo Saboya.

Segundo o coordenador do Cepea, a economia brasileira está alcançando o limite da disponibilidade de sua força de trabalho, o que deverá ser um desafio cada vez maior nos próximos anos para as empresas, que hoje estão tendo que equacionar aumentos salariais lastreados no avanço do salário mínimo, o que resulta em mais um ingrediente altista para o custo das companhias.

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