Harry Potter é herói de esquerda, diz jornal francês

sexta-feira, 26 de outubro de 2007 13:33 BRST
 

Por James Mackenzie

PARIS (Reuters) - Harry Potter -- herói da aristocracia intelectual esquerdista que se opõe à classe média materialista? Isso mesmo, diz o jornal francês Libération.

Para acompanhar a publicação na França do derradeiro volume das aventuras do menino mago de J.K. Rowling, o maior jornal diário de esquerda da França dedicou a capa e mais duas páginas de sua edição desta sexta-feira a explicar "Porque Harry Potter é de Esquerda."

O jornal -- que, como outros órgãos da imprensa nacional francesa, aparentemente nunca tem medo de parecer intelectualmente aristocrático -- convidou o filósofo Jean-Claude Milner a somar suas reflexões às milhões de palavras de análise de Harry Potter já escritas em todo o mundo por estudantes, críticos e entusiastas.

Milner identificou uma reação à revolução de livre mercado instigada na Grã-Bretanha pelos governos de Margaret Thatcher.

"Lendo Harry Potter, temos a sensação de que, como muitos ingleses cultos, J.K. Rowling sente que houve uma revolução thatcheriana real e catastrófica e que a única chance que resta agora à cultura é sobreviver como ciência oculta", ele escreveu.

Milner identificou os "Trouxas" -- habitantes do mundo normal, não mágico -- como a burguesia inculta que se beneficiou materialmente dos anos Thatcher e, depois, sob o governo de Tony Blair.

"No mundo descrito por J.K. Rowling, havia os Trouxas, que representam a classe média thatcheriana-blairiana (abrangendo desde a baixa até a alta classe média), e os outros: o povo, as pessoas cultas e a aristocracia sem dinheiro -- pessoas que se pode esperar encontrar nas escolas particulares de prestígio e na Universidade de Cambridge", disse o filósofo.

Milner disse que o mundo da cultura desinteressada defendido por Harry Potter e seus amigos na Academia Hogwarts, de elite, representa uma forma de oposição aos valores da economia de mercado, que só busca o lucro.

"Como tal, Harry Potter é uma máquina de guerra contra o mundo thatcheriano-blairiano e o 'American way of life'."

A versão francesa do último volume da série, "Harry Potter e as Relíquias de Morte", começou a ser vendida à meia-noite.

 
<p>O ator Daniel Radcliffe, que interpreta Harry Potter na s&eacute;rie de filmes da franquia, posa para um retrato em Nova York. Harry Potter, her&oacute;i da aristocracia intelectual esquerdista que se op&otilde;e &agrave; classe m&eacute;dia materialista? Isso mesmo, diz o jornal franc&ecirc;s Lib&eacute;ration. Photo by Lucas Jackson</p>