June 20, 2008 / 12:22 PM / 9 years ago

Ingenuidade e deslumbre marcam novos negócios da moda brasileira

5 Min, DE LEITURA

Por Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - Esqueça as pantalonas, as maxibolsas ou os babados. Para entender de moda brasileira agora é preciso saber o que é um fundo de investimento, uma gestora de marcas ou uma holding operacional.

A nova tendência é difícil de usar. Chegou com estardalhaço na temporada passada e se estende aos trancos e barrancos por esta nova edição do São Paulo Fashion Week.

A "novidade" já deu dor e cabeça para estilistas de renome como Alexandre Herchcovitch e Fause Haten, além da grife Zoomp, cooptados pela gestora de grifes Identidade Moda (I'M). Os dois primeiros se desligaram da nova empresa, e a Zoomp acabou de fora do SPFW -- tudo por causa de problemas financeiros.

Enquanto Herchcovitch conseguiu desfazer o negócio, Fause Haten perdeu a grife que leva seu nome inteiro, relembrando o caso Marcelo Sommer, que vendeu sua grife Sommer ao grupo familiar AMC Têxtil em 2004 e acabou afastado por divergências de criação.

"Eles achavam que iam ganhar milhões, mas na verdade iam gastar milhões. Acho que foi ingenuidade", disse a editora de moda Regina Guerreiro sobre os empresários e estilistas do caso I'M.

Apesar do drama, o mundo fashion não se deixa abater -- Fause Haten lançou uma nova grife, a FH, e Herchcovitch desfilará suas coleções feminina e masculina. No lugar da I'M, que roubou os holofotes em janeiro e depois desapareceu das passarelas, agora é a vez da Inbrands, que já estava no mercado, mas surge com mais poder de bala.

A Inbrands é uma holding operacional que gere a parte logística e financeira de seu portfolio de grifes -- Ellus, 2nd Floor e Isabela Capeto. Um dos sócios da empresa, Nelson Alvarenga, confimou à Reuters que Herchcovitch fará parte do grupo.

Enquanto a I'M chegou a vislumbrar um faturamento de 300 milhões de reais para este ano, triplicando o valor em cinco anos, a Inbrands afirma que fará este ano 500 milhões de reais e, em dois anos, terá faturamento de 1 bilhão de reais.

"Cada marca vai manter sua identidade", promete Alvarenga. "A parte de criação, distribuição e marketing continua da mesma maneira. O que a Inbrands vai fazer é ajudar em tudo aquilo que o consumidor não vê, que é a parte de organização, de logística, financeira", disse.

"O objetivo é ser a número um, ou dois no máximo, no Brasil", disse.

Por conta da experiência de Alvarenga, que fundou a Ellus 35 anos atrás, há um otimismo dos especialistas com a Inbrands.

Além dela, também existem outros grupos formando pequenos conglomerados de moda, embora com menos barulho -- como a AMC Têxil (Colcci, Forum, Triton e Coca-Cola Clothing), a BR Labels (VR Menswear e Mandi) e a Marisol (Rosa Chá e Lilica Repilica).

Desconfiados

Para Regina Guerreiro, a "tendência" precisa, para dar certo, de grupos muito fortes financeiramente para um investimento eficaz e de um produto mais caprichado.

"Não é apostando na moda que a gente está fazendo ainda que a gente vai conseguir exportar", disse Regina, explicando que só beachwear e jeanswear brasileiros exportam de verdade.

"Acho que a moda brasileira deveria apostar mais em básicos, em uma ótima qualidade e acabamento, e deixar as pessoas personalizarem esses básicos", disse. "Porque a moda vai pra isso. Todos os caminhos já foram percorridos. Mais um babado, menos um babado, não vai mudar o futuro de ninguém."

Quem não entrou ainda na nova fase, olha desconfiado, mas aberto a negociações, como o estilista Oskar Metsavaht, da festeja e cobiçada grife Osklen, que abriu o SPFW na terça-feira.

Ele afirmou que já foi procurado por cerca de seis grupos de investimento e que deve fazer uma parceria com uma empresa estratégica ligada à indústria de moda.

"Você só tem a ganhar com isso. Só não vou abdicar da minha liberdade de estilo de vida e liberdade criativa", disse o estilista, embora tenha se mostrado bastante cauteloso.

"O que eu disse na época (em janeiro) foi que estava tudo bastante prematuro. Está tendo um deslumbre tanto dos fundos de investimentos como dos designers, e eu até me incluo nisso. Acho que há um deslumbre sem muita consistência nos negócios ainda", disse.

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