18 de Junho de 2008 / às 00:09 / em 9 anos

ESPECIAL-Cinema latino brilha, mas ainda enfrenta dificuldades

Por Lucila Sigal

BUENOS AIRES (Reuters) - O cinema latino-americano passa por um período de expansão que se reflete no aumento da produção, na busca por novas temáticas e estéticas e na presença marcante em festivais internacionais.

Com mais de 20 filmes participando na última edição do Festival de Cannes, quatro dos quais na competição pela Palma de Ouro, o cinema latino-americano ocupou lugar privilegiado e demonstrou sua condição universal.

Entretanto, apesar das críticas positivas e do reconhecimento no exterior, a maioria dos diretores encontra dificuldade em distribuir seus filmes comercialmente em seus próprios países e no resto da região.

O panorama se repete em quase toda a América Latina. O cinema norte-americano cobre cerca de 80 por cento da oferta. E essa porcentagem pode ser ainda maior em países que não têm produção cinematográfica própria.

“A questão da hegemonia dos Estados Unidos revela a gravidade da situação e é o ponto de partida. Precisamos ver como recuperar os espaços perdidos”, disse Eva Piwowarski, secretária técnica da Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul (Recam).

“Há demonstrações de alta qualidade na região, e é preciso defender as leis de promoção do cinema. Ainda nos faltam políticas e medidas concretas para que a realidade dos festivais se transfira para a realidade dos mercados.”

Em alguns países latino-americanos, o Estado exerce um papel chave, graças à concessão de subsídios na realização de novas produções. Na ausência de uma indústria sólida, muitos cineastas também recorrem às contribuições de entidades privadas, sobretudo européias.

Uma das principais conquistas do cinema latino-americano foi o Ibermedia, um acordo entre os países da região, mais Espanha e Portugal, para um fundo destinado a produções.

LATINOS NA EUROPA

Na América Latina, há três grandes cinemas que costumam sobreviver às crises econômicas diversas: os do México, Brasil e Argentina.

Países como Chile, Uruguai, Venezuela, Cuba e alguns centro-americanos também estão vivendo uma renovação e estreando filmes de qualidade, segundo especialistas.

O México lançou cerca de 40 filmes em 2007, o Brasil, quase 80, e a Argentina, cerca de 90. Venezuela lançou 14, Cuba, 12, Chile, 10 e Uruguai, quatro.

“Os cinemas de nosso continente têm seus momentos de auge e de queda, mas nos países em que existe uma tradição cinematográfica o cinema se mantém porque há pessoas que vêm transmitindo seus conhecimentos”, disse Lita Stantic, produtora reconhecida e vista como mecenas do chamado “novo cinema argentino”.

”Mais filmes argentinos são lançados na França que em toda a América Latina, disse ela. “É muito difícil lançar um filme latino-americano...Os filmes feitos por minha produtora são vendidos mais facilmente na Europa que na América Latina.”

De acordo com dados da Recam, entre 2000 e 2004 apenas 17 filmes argentinos chegaram aos cinemas do México. Ao mesmo tempo, entre 2000 e 2005, 147 filmes latino-americanos foram exibidos na Europa.

Desse total, 91 vieram da Argentina, 27 do Brasil, 17 do Chile, sete do Uruguai e cinco da Venezuela. O maior mercado foi a Espanha (82 por cento), seguida da França (9 por cento).

“Acontece comigo com frequência de assistir a produções de outros países da região em festivais de cinema, mas não em lançamentos comerciais. Isso claramente não funciona”, comentou Pablo Trapero, diretor argentino de “Leonera”, um dos quatro latino-americanos na competição de Cannes.

“Mas nos últimos anos a relação vem se tornando um pouco mais fluida que nos anos anteriores. Este ano estavam em Cannes (o brasileiro) Walter Salles, que além disso é produtor de ‘Leonera’, e (o mexicano) Alfonso Cuarón era um dos jurados”, disse Trapero.

TEMÁTICAS VARIADAS

O surgimento de novas escolas de cinema, tecnologias digitais mais econômicas e a forte necessidade de expressão estão entre as razões do aumento da produção e procura de novos temas.

Em Cuba, jovens realizadores estão tentando abrir caminho dentro das estruturas estatais para poder exibir e comercializar suas produções independentes, que abordam desde a censura política e a imigração até a politização da sociedade.

O cinema da América Central (Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá) está renascendo após anos de guerras e desastres naturais, com temas ligados ao resgate da memória história e às questões indígenas.

No México, além dos diretores Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu e Guillermo del Toro, que trabalham em Hollywood, existe outro grupo de cineastas que fazem um cinema nacional com temas locais, como Carlos Reygadas, Juan Carlos Rulfo, Arturo Ripstein e Luis Estrada.

Muitos especialistas dizem que, além das temáticas, dos subsídios estatais às vezes questionados e das discussões sobre se existe ou não uma indústria cinematográfica regional, o importante é destacar o talento de diretores como Reygadas no México, Lucrecia Martel na Argentina ou Walter Salles no Brasil, entre outros.

“É muito difícil fazer cinema num país ou num continente onde realmente não há indústria. Acho que na América Latina os cineastas que estão dando o que falar e estão fazendo coisas interessantes são os que são autores”, concluiu Alberto Fuguet, escritor e cineasta chileno.

Para o respeitado cineasta chileno Miguel Littin, a solução está na integração cultural da região, da mesma forma como acontece nos setores econômicos, sociais ou políticos.

“Estamos segmentados, segregados, divididos, com grande desconhecimento uns dos outros”, ele disse. “Precisamos de uma lei de livre comércio ou de livre expressão do cinema latino-americano na América Latina.”

Colaboração adicional de María José Latorre em Santiago, Rosa Tania Valdés em Havana, Fernanda Ezabella em São Paulo, Armando Tovar na Cidade do México e Patricia Rondon em Caracas

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