27 de Agosto de 2008 / às 00:41 / em 9 anos

Documentário analisa transformações na cultura negra dos EUA

Por Christine Kearney

NOVA YORK (Reuters) - No momento em que os Estados Unidos têm a oportunidade de eleger seu primeiro presidente negro, a destacada escritora americana Toni Morrison diz que os estudantes universitários negros de hoje não estão tão focados sobre questões raciais quanto seus antecessores.

"Eles não se interessam pela divisão racial. Esse assunto os entedia", disse Morrison, professora da Universidade Princeton e primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura. "Eles nem querem falar sobre isso."

Morrison e outros negros americanos destacados falam sobre cultura negra em um novo documentário da HBO que vai ao ar esta semana na TV americana, "The Black List Vol. 1", incluindo entrevistas com 23 americanos negros de sucesso em diferentes campos.

Transmitido na semana em que o senador Barack Obama está prestes a obter a indicação para ser candidato do Partido Democrata à presidência, o documentário ressalta o significado de ser negro nos EUA e como isso evoluiu desde o movimento dos direitos civis, dos anos 1950 e 1960, que lutou para abolir a discriminação racial.

"A candidatura de Obama trouxe a discussão mais aberta da questão racial desde o movimento dos direitos civis. Este é um momento maravilhoso", disse o fotógrafo Timothy Greenfield-Sanders, que dirigiu o filme.

Morrison, 77 anos, disse à Reuters que alguns afro-americanos mais velhos têm dificuldade em aceitar que os tempos mudaram desde o movimento dos direitos civis, enquanto o país chega mais perto da igualdade.

De acordo com ela, a geração mais velha "às vezes reluta em ver aquilo pelo qual lutou, uma sociedade não-racista, se concretizar, porque realmente quer que isso aconteça, mas tem dificuldade em abrir mão de sua luta".

Morrison e outros entrevistados no documentário, entre eles Colin Powell, disseram que ainda não há igualdade racial plena nos EUA. Powell cita o fato de pessoas terem questionado sua indicação a secretário de Estado dos EUA, devido a sua raça, e os problemas atuais de crianças negras para terem acesso a ensino de qualidade.

Acompanhando o filme, uma exposição de retratos fotográficos vai percorrer várias cidades americanas, e será publicado um livro de ensaios e fotos.

"Isso abre nossos olhos para o conceito de que o talento negro é muito mais amplo e abrangente do que se imaginava", disse Greenfield-Sanders, observando que as entrevistas feitas pelo jornalista Elvis Mitchell tiveram por objetivo romper estereótipos.

O coreógrafo Bill T. Jones comentou que os tempos mudaram muito desde o início dos anos 1980, quando outros artistas negros, como ele, se sentiram ultrajados quando ele declarou que se enxergava como artista, em primeiro lugar, e negro, em segundo.

"Hoje tudo mudou e ficou muito mais complexo. Naquela época, eu toquei numa ferida, já que a memória dos anos 1960 era muito mais recente", disse ele.

"A América ainda tem grandes problemas com a raça", disse Jones, mas acrescentou que a candidatura de Obama mostra "que há muito de que nos orgulharmos".

Para Toni Morrison, a atenção voltada à raça de Obama não passa de cortina de fumaça.

"É como Otelo: todo o mundo foca o fato de Otelo ser negro, mas isso é o menos importante nele", disse a escritora. "Quem quer falar sobre problemas reais, quando se pode dizer 'oh, ele é negro?'."

Alguns dos entrevistados dizem que, se Obama chegar à presidência, isso vai restaurar a fé nos ideais americanos.

"Isso fará muito pela imagem que o país tem dele mesmo, e não me refiro apenas a meninos e meninas negros que poderão declarar 'eu posso!"', disse Jones.

"Todo o mundo poderá dizer 'este é verdadeiramente um país em que, se você se esforçar o suficiente e tiver as habilidades certas, conseguirá fazer qualquer coisa que quiser'. E é isso que os EUA sempre representaram."

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