5 de Setembro de 2008 / às 15:46 / em 9 anos

Veneza recorda mortes de operários siderúrgicos em dois filmes

Por Silvia Aloisi

VENEZA (Reuters) - “Meu rosto está queimado? Não quero morrer!”, grita um operário siderúrgico em meio a um incêndio ocorrido em dezembro passado numa usina da ThyssenKrupp no norte da Itália, pouco antes de morrer com seis de seus colegas.

Gravados numa ligação telefônica aos serviços de emergência feita por outros operários, seus gritos podem ser ouvidos em “The Germans’ Factory” (A Fábrica dos Alemães), um dos documentários sobre mortes no local de trabalho que fizeram sua estréia no festival de cinema de Veneza.

“Eles estão queimados ou carbonizados?” é a pergunta assustadora do operador do serviço de emergência.

“The Germans’ Factory” usa entrevistas com familiares e colegas das vítimas, bombeiros e o promotor que investigou o caso para descrever o inferno dantesco em que sete operários morreram queimados na madrugada de 6 de dezembro de 2007.

Alguns deles estavam fazendo turnos noturnos regulares. Outros estavam fazendo hora extra para reforçar seu salário mensal de menos de 1.500 euros, e um tinha apenas passado no local para conversar com seus colegas antes de voltar para casa.

Outros operários que tentaram salvá-los disseram que os extintores de incêndio estavam vazios e que os padrões de segurança gerais na fábrica de Turim, que estava sendo desmontada para ser transferida para a região central da Itália, eram deficientes.

A acusação é desmentida pela ThyssenKrupp, que no início do ano fechou um acordo com as famílias para pagar indenização de 13 milhões de euros. Um promotor de Turim pediu que seis dos executivos da fábrica sejam levados a julgamento.

“Os sete mortos da Thyssen foram um despertar rude que nos pôs cara a cara com a realidade”, disse o diretor Mimmo Calopresti nas notas de produção do filme. “Foi um pesadelo de perigo, chamas e trabalhadores que continuam a pôr suas vidas em risco.”

Um dos acidentes de trabalho mais graves dos últimos anos na Itália, a tragédia chocou o país e levou o governo a endurecer a legislação sobre segurança no trabalho -- com pouco efeito até agora.

Quase não se passa um dia sem que jornais divulguem casos de mortes no trabalho. Uma pesquisa recente do instituto Eurispes revelou que 1.170 pessoas morreram na Itália em 2007 enquanto trabalhavam. É quase o dobro do número de homicídios e é muito superior às mortes no trabalho em outros países europeus.

O segundo documentário exibido em Veneza foi “ThyssenKrupp Blues”, de Pietro Balla e Monica Repetto. O documentário começou a ser filmado antes do acidente e acompanha quase um ano na vida de um dos operários demitidos da fábrica.

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