ESTREIA-Personagens à beira do suicídio se encontram em "Uma Longa Queda"

quarta-feira, 21 de maio de 2014 16:45 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Quatro pessoas, de personalidades totalmente diferentes, se encontram no terraço de um dos prédios mais altos de Londres, em plena noite de Ano-Novo, para dar fim a suas vidas. A confusão do encontro inusitado faz com que elas adiem a tentativa de suicídio e firmem um pacto de não se matarem até o Valentine's Day, em 14 de fevereiro, data do dia dos namorados em vários países, como a Inglaterra.

O enredo aparentemente absurdo ganha verosimilhança com a “multinarrativa” – os quatro personagens narram suas desventuras, cada um à sua maneira – criada por Nick Hornby no livro Uma Longa Queda, capaz de mostrar a complexidade das razões que os levam a tentar acabar com suas vidas e das que os fazem permanecer vivos.

A versão cinematográfica do best-seller tinha todo o potencial para alcançar o sucesso de crítica e público de outras adaptações de obras literárias do autor, a exemplo de “Alta Fidelidade” (2000) e “Um Grande Garoto” (2002), ou de “Educação” (2009), que tem roteiro do escritor.

No entanto, “Uma Longa Queda” (2014) decepciona não só os leitores de Hornby como o público em geral, que verão suas expectativas diminuírem aos poucos no decorrer de uma hora e meia de exibição do longa. Isso porque, com um argumento tão inusitado quanto esse e um tema tão ignorado como o suicídio, o que se espera é uma obra mais madura, independente do seu lado cômico.

Mas não é isso que o roteirista Jack Thorne, mais conhecido pelo trabalho em séries inglesas como “Skins” (2007-2009), e o diretor Pascal Chaumeil, responsável pelas comédias românticas francesas “Como Arrasar um Coração” (2010) e “Um Plano Perfeito” (2012), fazem nesta produção anglo-germânica.

O longa começa com o encontro de Martin (Pierce Brosnan), o ex-apresentador de TV que teve sua vida arruinada, perdendo o emprego, a família e a liberdade após se envolver com uma menor de idade; de Maureen (Toni Collette), a mãe sem perspectivas de Matty (Josef Altin), um jovem com graves deficiências físicas e mentais; de Jess (Imogen Poots), a garota amalucada, filha de político, que se aflige por ter sido largada pelo namorado, além de sofrer as consequências em sua família do desaparecimento da sua irmã; e J.J. (Aaron Paul), o músico fracassado que virou entregador de pizza e diz aos outros colegas suicidas que tem um câncer cerebral incurável.

Mas esse momento, que ocupa a primeira parte do livro praticamente inteira, leva apenas alguns minutos na tela e as ações que ocorrem na sequência, ainda naquela noite de réveillon com muita neve caindo, são atropeladas e facilmente concluídas com um nascer do sol para trazer esperança após aquela madrugada supostamente triste.

Inversamente, a viagem a Tenerife que, apesar de importante na obra literária, consome poucas de suas páginas, ganha grande espaço na produção cinematográfica, porém com um tom de viagem ensolarada de férias do “clube suicida” – ou da gangue como Jess gosta de falar –, em uma fuga capaz de solucionar seus problemas.

A mudança nas ações, nas características dos personagens secundários e até pontuais nos protagonistas é justificável em uma adaptação, mas Thorne e Pascal apenas tentam seguir alguns pontos principais da trama, alterando-os e não contextualizando-os, além de não dar profundidade aos pensamentos em conflito dos membros do quarteto.   Continuação...