ESTREIA-"Setenta" reencontra perseguidos políticos e visita ditadura de forma sóbria

quarta-feira, 28 de maio de 2014 16:08 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Em dezembro de 1969, um grupo de combate à ditadura brasileira, o Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sequestrou o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Após semanas de negociações com os militares, 70 presos políticos foram libertados e enviados a Santiago, no Chile, em troca do embaixador.

São os 18 remanescentes desses presos que a jornalista Emília Silveira, vítima própria do regime militar, dá voz em seu primeiro longa, “Setenta”. Um documentário cuja estrutura sóbria e tradicional mostra como eram e o que se tornaram esses presos, depois de 40 anos.

Nas entrevistas conduzidas pela própria Emília, a partir do roteiro de Sandra Moreyra, o espectador vislumbra o que era viver na clandestinidade, os abusos e torturas na prisão, a experiência de exilado político e, por fim, como continuar vivendo, tocando a vida depois de tudo. Afinal, o que aconteceu com suas crenças e sonhos daqueles que arriscaram a sua vida por um ideal coletivo?

Com uma condução criteriosa e, ao mesmo tempo, afetiva das entrevistas, a jornalista constrói uma sólida narrativa para seu filme. Muito também apoiada por uma excepcional pesquisa histórica e imagens de filmes que retrataram à época, como “Não é Hora de Chorar”, de Luis Sanz e Pedro Chaskel, “Dora – Quando Chegar o Momento”, de Luis Sanz e Lars Safstron, e “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton. Um trabalho de composição que durou quase uma década.

Além dos entrevistados como Wilson Barbosa, Nancy Mangabeira Unger, Vera Duster, Ismael Souza, Marco Maranhão, Jaime Cardoso, Jean Marc Von Der Weid, Reinaldo Guarany, René de Carvalho e Luis Sanz, entre outros, a diretora ainda traz depoimentos emocionantes de Frei Tito (que se suicidou em 1974, na França) e Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dodora, (que se suicidou em Berlim, 1976), extraídos do filme “Brazil - A Report on Torture”, de Saul Landau e Haskell Wexler (1971).

Na delicada relação que tem com o tema, Emília Silveira não tem a ambição de fazer um “acerto de contas” com o passado recente do Brasil. Ciosa do seu ofício de jornalista de extrair o melhor de seus personagens, traz um documentário com múltiplos olhares “de quem conseguiu superar e de quem não aguentou”, como definiu durante a 37ª Mostra de Cinema de São Paulo (2013), onde seu filme foi destaque.

(Por Rodrigo Zavala, do Cineweb)

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