ESTREIA-Wes Anderson une comédia e crítica social em “O Grande Hotel Budapeste”

quarta-feira, 2 de julho de 2014 15:56 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Bem-vindos à República (imaginária) de Zubrowka, país situado nos confins do leste europeu e que abriga um hotel que reina no alto de uma montanha. Tanto o país quanto o hotel foram afetados por grandes acontecimentos no século 20: a “Belle époque” cedeu lugar a um crescente fascismo, que culminou com uma guerra.

Como se não bastasse, o país fez parte do bloco comunista. Eis o pano de fundo em que se desenrola “O Grande Hotel Budapeste”, novo filme do diretor norte-americano Wes Anderson (“Moonrise Kingdom”) que abriu o mais recente Festival de Berlim, em fevereiro.

Desde esse lançamento, não faltaram elogios ao filme. Não sem motivo, visto que não lhe faltam superlativos, a começar pelo elenco, um verdadeiro desfile de grandes atores.

Em cena, Ralph Fiennes (M. Gustave, o concierge), Jude Law (jovem escritor), Adrien Brody (o vilão Dmitri), Edward Norton (o militar Henckels), Bill Murray (o amigo de Gustave, M. Ivan), sem falar na memorável atuação de Tilda Swinton, irreconhecível na pele de uma milionária octagenária, Madame D.

Seria injusto não mencionar a excelente atuação do novato Toni Revolori (Zero, fiel escudeiro do concierge) e da bela Saoirse Ronan (Agatha), sua namorada.

Além desta constelação de talentos, o filme impressiona pela fluidez com a qual a ação se desenrola. Tanto os atores, quanto o roteiro, a fotografia, o figurino, tudo foi pensado de modo a fazer da trama de Wes Anderson uma verdadeira alegoria dos eventos que marcaram a Europa no século passado através daqueles que o viveram.

A trajetória do concierge vivido por Ralph Fiennes chega até nós graças ao encontro com aquele que foi seu fiel escudeiro, Zero (na maturidade, interpretado por F. Murray Abraham) com um jovem escritor - espécie de alter-ego do escritor Stefan Zweig (austríaco que, desencantado com os rumos da 2ª guerra, suicidou-se em Petrópolis, em 1942), cujos livros serviram de inspiração na construção do roteiro.

Esta parte da ação ocorre nos anos 1960, mas logo seremos transportados aos anos gloriosos do hotel, no começo da década de 1930, quando os corredores eram percorridos pela elite europeia e M. Gustave era um verdadeiro maestro, tendo que lidar com os caprichos dos hóspedes, mas também com a rotina dos empregados - tudo isto sem jamais perder a classe.

“O Grande Hotel Budapeste” é um filme em que cada personagem parece retratar com grande talento os encantos deste microcosmo – e a trama apresenta reviravoltas no melhor estilo Agatha Christie. Visualmente, a sincronia dos movimentos da câmera em relação ao roteiro e às nuances de interpretação remete a filmes como “Delicatessen” (de Jean-Pierre Jeunet, 1991).   Continuação...