ESTREIA-Michael Caine interpreta um viúvo solitário em “O Último Amor de Mr. Morgan”

quarta-feira, 2 de julho de 2014 16:02 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - “Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos.”

A frase de Orson Welles define bem o espírito, pelo menos inicial, de “O Último Amor de Mr. Morgan” (2013), o novo filme multinacional da alemã Sandra Nettelbeck que trata da solidão e de como ela sobressai com a falta daquelas pessoas e referências que antes preenchiam nossas vidas.

A diretora, que ficou conhecida pela sua estreia no cinema com “Simplesmente Martha” (2001), refilmado em Hollywood como “Sem Reservas” (2007), parece usar sua própria experiência após a morte do pai, em 2007, para conduzir este longa, feito em memória dele.

Baseado no romance “La Douceur Assassine”, de Françoise Dorner, a adaptação troca o então protagonista francês pelo norte-americano Matthew Morgan, professor de filosofia aposentado, interpretado pelo britânico Michael Caine, que não conseguiu superar a morte da esposa (Jane Alexander) após três anos.

Quase recluso em sua casa em Paris e preso aos costumes que mantinha com a mulher, o viúvo perdeu o interesse pela própria vida – que dirá tentar aprender o idioma local, já que Joan falava francês pelos dois. Até que o encontro em um ônibus com uma jovem professora de dança, Pauline Laubie (Clémence Poésy), muda sua depressiva rotina.

Apesar do sorriso no rosto e da alegria da dança que ensina, o cha-cha-cha, logo fica claro que Pauline também é bem solitária. Embora seja revelado que o pai dela morreu e que a jovem sente muita falta dele, o ar de mistério sobre a sua vida permanece até o fim da película, sendo um dos pontos positivos da história.

Se o senhor Morgan projeta sua mulher falecida na moça, por sua vez, ela acaba se lembrando do pai quando está com ele. E assim nasce uma bonita relação de troca entre estas duas pessoas aparentemente tão diferentes, mas muito próximas em relação àquilo que sentem – existe inclusive certa dubiedade sobre um possível amor platônico entre eles, que é bem dosada.

A fotografia sóbria e, às vezes, até escura de Michael Bertl, e uma surpreendente trilha contida e suave de Hans Zimmer também auxiliam na construção do clima que marca a primeira parte do filme.

No entanto, quando o longa está próximo da metade, toma um rumo bem diferente, com a entrada dos filhos de Matthew vindos dos Estados Unidos, o ressentido Miles (Justin Kirk) e a pragmática Karen Morgan (Gillian Anderson).   Continuação...