2 de Julho de 2014 / às 22:04 / 3 anos atrás

ESTREIA-Drama “O Céu é de Verdade” adapta best-seller religioso

SÃO PAULO (Reuters) - Os números comprovam: o mercado gospel é um dos que mais crescem em todo mundo. De olho neste filão, chega às telas “O Céu é de Verdade” (2014), produção com elenco e equipe técnica renomados em Hollywood e estrutura narrativa dos modestos filmes cristãos.

O longa de Randall Wallace –roteirista de “Coração Valente” (1995) e diretor de “O Homem da Máscara de Ferro” (1998)– baseia-se no relato do garoto norte-americano Colton Burpo, que disse ter ido ao céu após uma experiência de quase-morte aos quatro anos de idade.

Transformada em livro pelo seu pai, o pastor Todd Burpo, e Lynn Vincent, a ghost-writer da política conservadora Sarah Palin, a história do menino virou best-seller, com mais de dez milhões de exemplares vendidos.

A obra cinematográfica começa com uma menina lituana pintando algo –cuja relação com a trama dos Burpos, nos EUA, somente é revelada no final– em um sótão escuro, onde um raio de luz invade o ambiente através de um buraco no telhado, ao som de uma música tocante e inspiradora.

São os sinais de recursos que serão utilizados constantemente no decorrer do filme: a trilha sonora incessante, desnecessária em muitos momentos, e uma fotografia que não só usa os feixes de luz como símbolo de divindade, como destaca o céu em suas composições de enquadramento.

Isso porque o fotógrafo Dean Semler, que ganhou o Oscar com “Dança com Lobos” (1990), junto com o diretor, tenta transformar a cidade de Imperial, no Nebraska –que, na realidade, é a canadense Manitoba, que serviu de locação para a produção–, em um Paraíso na Terra, com planos gerais dos campos locais e seus horizontes.

É lá que vive Todd (Greg Kinnear), que além de pastor da Crossroads Wesleyan Church, é bombeiro voluntário do lugarejo, treinador de luta livre na escola local e instalador de portas de garagem.

Assim é apresentado o bom caráter do protagonista, que se desdobra, mesmo tendo várias contas a pagar, situação agravada quando fica impossibilitado de trabalhar ao quebrar a perna jogando softbol e sofrer com uma crise de pedras renais.

No entanto, fora as amostras desse esforço no início e uns boletos jogados na mesa, não parece que ele está realmente passando pelas graves dificuldades financeiras de que fala com sua esposa, Sonja (Kelly Reilly), já que consegue até fazer uma viagem com a família de mais de 300 quilômetros para Denver, com a intenção de espairecer.

Na volta do passeio, seus dois filhos sofrem com os efeitos de uma virose. Mas enquanto Cassie (Lane Styles) logo se recupera, o pequeno Colton (Connor Corum) ainda padece até descobrirem que se trata de uma apendicite grave.

O menino é submetido a uma cirurgia de emergência, que preocupa muito seus pais e todos os conhecidos da igreja, mas, de repente, ele já está acordado e fazendo pedidos.

Subtende-se que o procedimento médico foi um sucesso. Logo, vê-se também que o foco da história é outro, quando o garoto começa a contar ao pai o que viu enquanto era operado: quando ele saiu do próprio corpo, assistiu à aflição de seus progenitores e, acompanhado de Jesus Cristo, visitou o céu, onde encontrou parentes já falecidos que nunca conheceu.

A partir daí evidencia-se a fragilidade do roteiro, incapaz de construir uma história que realmente convença até alguns cristãos; o que dirá de quem não for. Não que Wallace e seu parceiro de texto, Chris Parker, tivessem que necessariamente persuadir todo o público da existência do Paraíso.

Mas era preciso fazer com que o espectador realmente entendesse o que levou os pais dele, os outros personagens do longa e milhares de leitores a acreditarem na experiência de Colton, com seus relatos sobre Jesus montado em um cavalo “cor de arco-íris”, em um Paraíso onde todos são jovens e outra série de imagens que ele poderia muito bem ter visto antes, consciente ou inconscientemente, já que cresceu em um ambiente religioso.

No entanto, em vez disso, tornam tudo muito caricatural.

Randall Wallace, que chegou a estudar religião na Universidade de Duke, teria condições de fazer uma obra sobre a fé e as dúvidas que ela inevitavelmente gera no ser humano.

Às vezes, há indícios de que o longa se voltará para esse caminho, seja com os questionamentos que Todd faz a si mesmo ou com a desconfiança dos membros da igreja em relação à decisão do seu pastor, a exemplo de Nancy (Margo Martindale), a amiga um tanto amargurada pelo passado.

Contudo, “O Céu é de Verdade” perde-se em diálogos rasos e logo o receio de toda a assembleia de fiéis facilmente desaparece. Produzido por T. D. Jakes, fundador de uma mega igreja não-confessional norte-americana, a The Potter’s House, o filme ainda introduz uma psicóloga na história como uma espécie de “voz contrária”, mas com um discurso pífio apenas para servir de recurso de convencimento dos espectadores mais céticos.

Não é surpresa que, com este material em mãos, as interpretações fiquem abaixo do potencial do competente elenco.

Thomas Haden Church, por exemplo, interpreta Jay, bom companheiro de Todd, que é um coadjuvante de peso para a trama, mas não é bem desenvolvido na produção. Mesmo distante do seu melhor, Kinnear tem o poder de cativar o público, especialmente quando o roteiro lhe permite isso no discurso final e em sua relação com o filho, vivido pelo carismático e estreante ator mirim Connor Corum.

Além disso, o diretor abusa de “travellings” e “steady-cams” contemplativos, com exceção de raros momentos de tensão com câmera na mão. A maioria dos planos, no entanto, tem estilo mais televisivo, de filmes e séries de TV “para a família”, do que realmente cinematográfico.

No final das contas, “O Céu é de Verdade” não passa de um leve entretenimento, daqueles que se assiste no sofá durante um feriado.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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