ESTREIA-Terry Gilliam busca sentido da vida em ficção científica retrô

quarta-feira, 9 de julho de 2014 19:32 BRT
 

SÃO PAULO (Reuters) - Chega a ser curioso que o cineasta Terry Gilliam, único integrante americano da trupe de comediantes britânicos Monty Python, volte a buscar as razões para a existência 30 anos depois do clássico “O Sentido da Vida”, co-dirigido e estrelado por ele em 1983 e que volta a cartaz em São Paulo também nesta quinta-feira.

Mas seu novo filme, “O Teorema Zero”, tem muito mais a ver com sua expressiva carreira solo do que com o humor escrachado do grupo que o tornou conhecido.

Responsável pelos cultuados “Brazil – O Filme” (1985), “Os Doze Macacos” (1995) e “Medo e Delírio em Las Vegas” (1998), Gilliam surpreende como autor visual, muitas vezes exagerado e tendendo a bizarrices, mas sem perder o senso de ritmo ou uma sólida narrativa. Qualidades, enfim, que demonstrou em seu trabalhos no Python “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” (2009), e que vem apurando durante as últimas décadas.

Nesta nova empreitada, estrelada por Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”) e Matt Damon (uma participação especial, na verdade), ele volta a situar o espectador em um futuro estilizado, de uma modernidade retrô. Embora reflita sobre a tecnologia e a era da Internet nas relações humanas, o ponto máximo de Gilliam aqui é a informação.

Na história, Qohen Leth (Waltz) é um especialista em arquitetura de informação, cujo trabalho incessante é construir e desconstruir as bases em que ela se agrupa, contratado pela figura misteriosa da Administração (Damon). Afogado em algoritmos, é apático, recluso e sua única preocupação é atender a um telefonema que, mais tarde se entende, vai lhe explicar o seu propósito de vida.

Diferentemente das personagens de seu cotidiano, como o supervisor (David Thewlis) ou a terapeuta (Tilda Swinton), Qohen Leth é reservado e beira à insanidade.

Fala em terceira pessoa, usando “nós” em vez de “eu”, quer trabalhar em casa (uma antiga abadia, em mais um dos símbolos que Gilliam deixa pelo caminho) para atender a tal ligação e é avesso a qualquer contato humano.

Por sua exponencial aptidão ao trabalho e seu estilo de vida, a Administração o convoca para um experimento, cujo resultado é responder à última questão: o próprio sentido da vida. Para ajudá-lo na iniciativa, ainda que de forma um tanto invasiva, a Administração envia uma garota de programa (Mélanie Thierry), que faz as vezes do interesse amoroso de Leth, e o próprio filho da Administração, o jovem gênio (Lucas Hedges).

No caminho para encontrar a resposta, o vazio do protagonista funciona como um catalisador das reflexões colocadas por Gilliam, que ele mesmo diz não conseguir responder sobre a vida moderna, a tecnologia e como a inteligência coletiva (no fim, a grande base de dados da Administração) serve a um propósito maior.   Continuação...